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Estado de Minas

Coronavírus deixa sem trabalho e sem Páscoa os cristãos do Paquistão


postado em 11/04/2020 10:19

Os cristãos no Paquistão, uma comunidade discriminada composta principalmente de trabalhadores agrícolas ou domésticos, estão perdendo seus empregos devido à crise do coronavírus, e muitos passarão a Páscoa com o estômago vazio.

"Nós já éramos intocáveis, mas agora os ricos acreditam que os pobres podem trazer o coronavírus para casa", diz Aamir Gill, que foi demitido da noite para o dia pela família rica para quem trabalhava como faxineiro.

Juntamente com outros trabalhadores domésticos, trabalhava meio período em uma das enormes mansões de Islamabad, fazendo faxina principalmente depois das festas.

Ele só podia entrar na mansão quando autorizado e precisava esperar em uma pequena sala especial para os funcionários.

"Não sei quantos cômodos havia, mas era grande", diz ele, assegurando que seu empregador tinha empresas no exterior e muitos carros.

Aamir Gill, de 30 anos, trabalhava como vendedor em uma loja de roupas, mas a loja foi fechada por ordem das autoridades para impedir a propagação da COVID-19, que deixou 66 mortos no Paquistão.

"Meus filhos me pediram vestidos e roupas novas para a Páscoa, mas eu lhes disse que este ano não teríamos Páscoa", explica em seu pequeno apartamento, em uma favela.

Os cristãos representam 2% da população do Paquistão e são uma minoria discriminada neste país de 200 milhões de pessoas, a maioria muçulmana.

Muitos deles são descendentes dos dalits ou intocáveis, a casta hindu mais baixa, e são discriminados por esse motivo.

Grupos extremistas os odeiam e foram alvos de ataques durante os anos 2000. É por isso que os cristãos temem ser acusados de blasfêmia, uma questão incendiária em vários países do sul da Ásia que pode levar a linchamentos.

Em Islamabad, muitos cristãos vivem nas "colônias", bairros insalubres onde é impossível praticar o distanciamento social contra o coronavírus.

"Nesta crise, na qual estão confinados em espaços superlotados e com poucos recursos, não podemos forçá-los a escolher entre fome e infecção", diz Omar Waraich, da ONG Anistia Internacional no sul da Ásia.

"Eles nos tiraram o pouco de pão que nos restava", diz Haroon Ashraf, de 25 anos, que foi demitido do restaurante onde trabalhava como garçom.

Para os cristãos paquistaneses, a Páscoa é uma festa de alegria com inúmeras refeições, mas este ano será difícil comemorar.

"Este ano não haverá Páscoa, apenas depressão e desespero", diz Haroon Ashraf. Junto com o irmão, ele precisa alimentar uma família de sete pessoas que vive em apenas dois quartos.

Sem poder frequentar as igrejas, os cristãos esperam celebrar a missa virtualmente por telefone ou subir nos telhados para ouvir sermões e cânticos à distância.

As igrejas também organizaram bancos de alimentos para ajudar uma comunidade "muito vulnerável", segundo o bispo de Lahore, Alexander John Malick.

Para Sharoon Shakeel, de 20 anos, os tempos são especialmente difíceis, depois que seu pai morreu no final de março e ele perdeu o emprego como faxineiro em um hospital.

Esta Páscoa será, para ele, "um pesadelo". Sem trabalho, não pode devolver o dinheiro que sua família lhe emprestou para o enterro e seus parentes também estão desempregados.

"Não temos comida (...) Como vamos celebrar a Páscoa? Tenho amor próprio, não posso pedir esmola", diz ele.


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