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Estado de Minas

Quarentenas e cordões sanitários, receitas antigas para grandes epidemias


postado em 24/01/2020 12:01

Peste, cólera e febre amarela: foi em resposta a grandes epidemias que quarentenas, desde a Idade Média, depois cordões sanitários foram inventados e aplicados regularmente, como é o caso da China diante do avanço do novo coronavírus.

- Os precedentes de Wuhan -

Restrições de movimento na região de Wuhan, metrópole de 11 milhões de habitantes do centro da China, afetam o cotidiano de mais de 40 milhões de chineses.

"Essas quarentenas estão na escala da população chinesa. Fora a SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave) em 2003, não há nada que possa se aproximar do tamanho dessa operação. Exceto talvez a quarentena de Bombaim, atingida pela peste em 1898", explica à AFP Patrick Zylberman, especialista em história da saúde na Escola de Estudos Avançados em Saúde Pública (EHESP).

Mais recentemente, durante a epidemia de ebola na África Ocidental (2013-2016), medidas de fechamento de fronteiras, contenção e quarentena foram impostas em várias ocasiões.

Assim, os seis milhões de serra-leoneses foram forçados a ficar em casa por três dias em setembro de 2014 e novamente em março de 2015. Esse "confinamento geral" teve como objetivo deter a epidemia.

- Quarentena ou cordão sanitário -

Quarentena é um isolamento temporário imposto a pessoas, navios ou animais provenientes de um país infectado por uma doença contagiosa, de acordo com a definição do dicionário Larousse.

O cordão sanitário corresponde, por sua vez, a postos de vigilância para controlar e bloquear a entrada ou saída de uma área afetada por uma epidemia.

No caso da epidemia chinesa, é o equivalente a um enorme cordão sanitário instalado na região de Wuhan.

- Nascimento da quarentena -

Foi para se proteger da peste bubônica que apareceram nos séculos XIV e XV as primeiras medidas documentadas para isolar navios provenientes de áreas infestadas, em Dubrovnik (Croácia) em 1377 e depois em Veneza (Itália) a partir de 1423.

A duração imposta do isolamento, 40 dias, determina a palavra "quarentena". Os estabelecimentos que acomodam as tripulações confinadas levam o nome de lazareto: deformação do nome da ilhota na lagoa veneziana onde os navios atracavam, Santa Maria di Nazaret, ou outra referência ao leproso da Bíblia, Lázaro.

As quarentenas foram então adotadas regularmente na Europa durante epidemias até a grande pandemia de cólera que atingiu o continente na década de 1830.

- Aparição do cordão sanitário -

O termo "cordão sanitário" nasceu na França no século XIX, quando em 1821 Paris enviou 30.000 soldados para bloquear a fronteira com a Espanha, a fim de impedir a propagação de uma epidemia de febre amarela.

Mas bem antes dessa data, barreiras sanitárias foram estabelecidas durante grandes epidemias de peste, lembra Tom Solomon.

Este especialista britânico em doenças emergentes da Universidade de Liverpool cita "o famoso exemplo" do isolamento voluntário em 1665 do vilarejo de Eyam (Inglaterra) após um caso de peste para evitar contaminar o resto da região.

No sudeste da França, um "muro da peste" foi erguido em Vaucluse em 1721 por mais de 27 quilômetros, para proteger a região do Comtat Venaissin da peste que então se alastrava por Marselha e Provença.

- Eficiência em questão -

As medidas de restrições ao movimento podem ser "contraproducentes", causando pânico e levando as pessoas a fugir a todo custo, ressalta Tom Solomon.

Também podem levar a sérios distúrbios sociais, como ocorreu em Bombaim durante a epidemia de peste no final do século XIX, devido às hospitalizações forçadas de homens e mulheres sem distinção de casta, explica Patrick Zylberman.

Mais próximo de nosso tempo, o surto de SARS na China em 2003 levou a distúrbios e manifestações violentas nas regiões de Nanquim e Xangai (leste) após quarentenas brutais, disse este historiador em seu ensaio "Tempestades microbianas".


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