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Estado de Minas

Guia supremo iraniano desacredita manifestações contra o poder


postado em 17/01/2020 21:25

O guia supremo do Irã, Ali Khamenei, manteve nesta sexta-feira (17) uma posição firme e unidade contra os ocidentais e deu a entender que os protestos contra o poder após o desastre aéreo envolvendo um avião comercial ucraniano não eram representativos do povo como um todo.

Foi a primeira vez em oito anos que Khamenei fez o sermão da grande oração de sexta-feira na mesquita Mosalla, em Teerã. Sua presença é um sinal inequívoco do momento de tensão interna e externa no país.

"O Irã mostrou que apoia a resistência e não a submissão. Aqueles que tentam mostrar algo mais à opinião mundial não são honestos", declarou o líder perante uma mesquita cheia de fiéis.

O sermão de Khamenei foi entremeado por palavras de ordem de "Morte à América" e "Morte a Israel", entoadas pela multidão presente na mesquita e em seus arredores, de acordo com imagens da televisão estatal.

O aiatolá classificou a queda do avião ucraniano, atingido por um míssil lançado por um erro pelo sistema de defesa do país, como um "acidente amargo" que "queimou nossos corações", disse Ali Khamenei. "Mas alguns tentaram (usá-lo) como forma para fazer (esquecer) o grande martírio e o sacrifício" de Soleimani.

O líder fez referência à morte do general Qassem Soleimani, líder da Força Quds dos Guardiões da Revolução morto em um ataque de drone perpetrado pelos Estados Unidos próximo ao aeroporto de Bagdá.

Em retaliação, o Irã atacou com mísseis duas bases iraquianas que abrigam soldados dos EUA e abateu por engano o avião ucraniano que acabara de decolar de Teerã com destino a Kiev, matando todas as 176 pessoas que estavam a bordo, a maioria de origem iraniana.

Estos ataques cruzados colocaram Irã e Estados Unidos à beira de um enfrentamento, embora finalmente os dirigentes abrandaram o tom e asseguraram que não desejavam uma nova guerra.

No entanto, o presidente americano, Donald Trump, reagiu rispidamente ao sermão de Khamenei, e afirmou que "deveria ter muito cuidado com suas palavras".

O aiatolá também se referiu às manifestações contra as autoridades, que ocorrem desde sábado em Teerã e em outras cidades após o tragédia do avião e o tempo que as forças armadas demoram para reconhecer sua responsabilidade.

- Canadá pede análise das caixas pretas -

Em meio ao clima de tensão entre Irã e Estados Unidos, o primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau, pediu nesta sexta-feira a Teerã que envie a um laboratório francês de análises as caixas-pretas do avião comercial ucraniano, no qual viajavam 57 canadenses.

"Somente alguns poucos países, como a França, têm os laboratórios capazes de fazer isso", disse Trudeau durante coletiva de imprensa.

"Seria o melhor lugar para enviar essas caixas-pretas e tirar delas as informações oportunas de forma rápida e isso é o que incentivamos as autoridades iranianas a fazer", acrescentou o premiê.

"As caixas-pretas sofreram graves danos e é muito importante (...) que sejam examinadas o mais rapidamente possível", disse o dirigente.

Horas antes, o chefe da diplomacia ucraniana, Vadim Pristaiko, declarou que o Irã estava disposto a transferir as caixas-pretas da aeronave da Ukraine International Airlines.

"A equipe conjunta de investigadores, composta por iranianos, canadenses e nós, vai acessar as caixas-pretas in situ. Depois disso, os iranianos estão prontos para levá-las à Ucrânia", informou Pristaiko perante os deputados do seu país.

- "Firmeza", "resistência" -

Elogiando a ação de Soleimani além das fronteiras do país pela "segurança" da nação iraniana, o aiatolá Khamenei afirmou que o povo iraniano é a favor da "firmeza" e da "resistência" diante dos "inimigos".

O ministro das Relações Exteriores russo, Serguei Lavrov, pediu nesta sexta-feira pela "distensão" e o fim "das ameaças constantes". A tragédia do avião "é um sinal muito sério para que comecemos a trabaçjar na redução da escalada".

Ainda que a tensão entre Estados Unidos e Irã pareça ter diminuído após o desastre aéreo, a tragédia causou indignação no Irã.

Na capital iraniana, um forte esquema de segurança foi estabelecido nesta sexta-feira.

Desde que o Irã reconheceu, no sábado passado (11), seu "erro" na queda da aeronave, manifestações são realizadas todos os dias contra o governo.

Concentrados especialmente em Teerã, os protestos acontecem em uma escala consideravelmente menor do que a onda de protestos nacionais de novembro contra o aumento do preço da gasolina, que terminaram com cerca de 300 mortos na repressão, segundo a Anistia Internacional.

De acordo com imagens postadas nas redes sociais, uma cerimônia na quinta-feira em memória das vítimas do acidente em Isfahan (centro) se transformou em uma manifestação hostil às autoridades.

Foi um general da Guarda Revolucionária que assumiu total responsabilidade pela tragédia e que alegou que tinha sido provocada pelo operador de uma bateria de míssil que confundiu o Boeing com um "míssil de cruzeiro", em pleno alerta de "guerra" das forças iranianas por medo de uma resposta americana.

Nesta sexta-feira, as autoridades anunciaram que "a pedido da população", manifestações em apoio ao "sistema sagrado da República Islâmica" e às Forças Armadas contra "o Grande Satanás (Estados Unidos)" vão acontecer durante todo dia, com exceção de Teerã.

Segundo o Conselho de Coordenação para a Difusão do Islã, os eventos devem ser uma oportunidade para comemorar "os esforços incansáveis das Forças Armadas, em particular da Guarda Revolucionária".

O presidente iraniano, Hassan Rohani, admitiu implicitamente na quinta-feira que havia uma crise de confiança das autoridades e defendeu sua política de abertura.

O aiatolá Khamenei reitera regularmente que os ocidentais não são confiáveis e proibiu qualquer diálogo com o governo Donald Trump.

Com a aproximação das eleições legislativas de 21 de fevereiro, anunciadas como difíceis para Rohani, e em um contexto de tensões crescentes entre Teerã e o Ocidente sobre o programa nuclear iraniano, Rohani também declarou que queria continuar dialogando com o mundo nesta questão.

Washington se retirou em 2018 do acordo nuclear internacional iraniano e restabeleceu as sanções econômicas contra Teerã.


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