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Estado de Minas

Líder judeu defende discurso do medo para combater antissemitismo


postado em 09/01/2020 16:13

Combater o medo com medo? Para resolver o antissemitismo, líderes políticos não devem hesitar em mobilizar a linguagem do medo de uma nova catástrofe, avalia Moshe Kantor, o iniciador de comemorações internacionais do holocausto em Jerusalém.

Dignatários de 40 países, entre os quais o francês, Emmanuel Macron, e o russo, Vladimir Putin, assim como o príncipe Charles, herdeiro do trono britânico, são esperado em 22 e 23 de janeiro em Jerusalém para comemorar o 75º aniversário da libertação do campo nazista de Auschwitz-Birkenau.

Os Estados Unidos ainda não anunciaram a identidade da personalidade política que vai lhes representar nesse encontro com dignatários, considerado um dos mais importantes organizados em Jerusalém desde a criação de Israel em 1948.

Essas celebrações visam não apenas a relembrar o holocausto e o assassinato de mais de 1 milhão de judeus no campo de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial, mas unir dirigentes na luta contra o antissemitismo.

"Enquanto falamos da tragédia, enquanto falamos dos problemas, enquanto falamos da guerra, da paz e dos meios de evitar, devemos ter em mente uma ferramenta poderosa: o medo", afirma Moshe Kantor, fundador do World Holocaust Forum, em entrevista à AFP.

Se o medo do outro alimenta o antissemitismo a ponto de levar à violência, o "medo" de uma nova tragédia deve mobilizar para educar a população e as gerações mais jovens.

"A história (que nós contamos) deve ser assustadora, porque os humanos devem ficar assustados, intensamente, para que a história se repita e essa é nossa missão: assustar", avalia Kantor, bilionário russo-israelense, que lembra Alfred Hitchcock.

- 'Desaparecer' da Europa? -

Há 16 anos, quando ele começou a refletir sobre a criação de um fórum mundial para celebração do holocausto, "o problema do antissemitismo era microscópico", disse Kantor nesta entrevista, concedida em Jerusalém.

Mas a crise financeira de 2008/2009 fragilizou, segundo ele, as classes médias ocidentais, que agiam como "estabilizadores" sociais, o que contribuiu, portando, ao fortalecimento da extrema direita e da extrema esquerda.

"A classe média era ligada por uma ideia importante: nossas crianças terão uma vida melhor que a nossa. Mas a crise financeira e econômica mundial deu fim a essa ideia. A classe média se polarizou entre muito ricos e muito pobres, e parou de desempenhar seu papel de estabilizador", afirmou Kantor, que também é presidente do Congresso Judaico Europeu.

No ano passado, o centro de pesquisa da Universidade de Tel Aviv que leva seu nome, contabilizou em cerca de 400 o número de atos violentos de antissemitismo em 2018 ao redor do mundo - uma alta de 13%.

O crescimento do antissemitismo na Europa, por exemplo, em ataques a cemitérios judaicos na França, contribuiu para a migração de judeus europeus para Israel ou outros países.

"Nós (judeus) desapareceremos da Europa em um ritmo de 3% ao ano. Se essa tendência se mantiver até 2050, nós vamos desaparecer completamente de um continente onde vivemos há milhares de anos. Nós devemos, portanto, mudar essa tendência", declarou.

Daí vem o interesse em reunir líderes europeus em Jerusalém, que trilharão a Terra Santa, enquanto a classe política israelense encabeça novas eleições, o que coloca em particular a questão de manter ou não diálogos bilaterais com Benjamin Netanyahu - que não será apenas o primeiro-ministro, mas candidato nas eleições de 2 de março.

A Alemanha, antiga potência nazista, será representada por seu presidente, Frank-Walter Steinmeier, enquanto o presidente da Polônia - país que viveu ocupação nazista, onde ficava o campo de Auschwitz - recusou o convite porque os organizadores desta comemoração não previam lhe deixar falar.

Os cinco principais discursos serão reservados aos representantes de França, Reino Unido, Rússia e Estados Unidos - países aliados contra a Alemanha nazista - e Israel.

"Ou a Polônia poderá falar, ou o presidente da República não vai participar deste evento", declarou o presidente polonês, Andrzej Duda, cujo país, o primeiro atacado pelo Exército de Hitler, perdeu seis milhões de habitantes, dos quais 3 milhões eram juízes.


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