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Estado de Minas

Cristãos de Gaza celebram Natal sombrio e sem permissão de saída


postado em 24/12/2019 10:55

Com o pinheiro iluminado, as paredes da sala de estar decoradas e figuras do Papai Noel em cima da mesa, a casa de Hanadi Missak está pronta para o Natal, mas esta palestina de Gaza lamenta ter que ficar em casa.

Hanadi, de 48 anos, faz parte do grupo de centenas de cristãos do enclave palestino que pediu permissão a Israel para viajar a Belém, onde, segundo a tradição cristã, Jesus nasceu e está localizada na Cisjordânia ocupada.

Qualquer palestino de Gaza que deseje viajar para a Cisjordânia deve atravessar o território israelense e obter uma autorização das autoridades israelenses, que frequentemente rejeitam a solicitação ou não respondem, como foi o caso de Hanadi.

Segundo autoridades religiosas palestinas, apenas uma em cada cinco pessoas recebeu permissão, um número particularmente baixo este ano.

À medida que as festividades se aproximavam, Hanadi Missak abandonou toda a esperança de visitar a Basílica da Natividade de Belém.

"Eu tinha grandes esperanças de ir a Belém, mas não foi possível", disse à AFP. "Lá temos verdadeiras celebrações, com as orações, decoração nas ruas (...) e a missa do Galo é maravilhosa", suspira.

- "Direito humano" -

O número de cristãos na Faixa de Gaza tem diminuído regularmente, especialmente desde a chegada ao poder do movimento islâmico do Hamas no enclave palestino em 2007.

Segundo responsáveis cristãos em Gaza, atualmente não haveria mais de mil, em comparação com os 7.000 cristãos que viviam no território antes de 2007.

Diretora de uma escola cristã, Hanadi comemorou vários anos seguidos a festa de Natal em Belém e não sabe por que este ano não recebeu autorização.

Num primeiro momento, Israel não concedeu nenhuma permissão, o que provocou críticas de cristãos palestinos e da mídia.

Em comunicado, o órgão israelense encarregado das operações civis nos Territórios Palestinos (Cogat) disse no domingo que as autorizações seriam "emitidas com base na avaliação de segurança".

O Cogat não indicou quantas autorizações concedeu este ano, apesar de vários pedidos de informações da AFP.

Segundo Wadi Abu Nassar, porta-voz das Igrejas da Terra Santa, de 951 pedidos de cristãos em Gaza, apenas 192 teriam recebido autorizações.

Mas "ainda esperamos mais. As autoridades israelenses fizeram promessas nesse sentido", disse Abu Nassar.

Celebrar o Natal em Belém é, como cristão, "um direito humano que deve ser respeitado", pontuou o porta-voz.

Desde 2008, Israel travou três ofensivas militares sangrentas contra o Hamas em Gaza. O governo israelense acusa o movimento islâmico de tirar proveito das permissões de viagem para planejar ataques.

Há mais de uma década, Israel impõe um severo bloqueio aéreo, terrestre e marítimo a este pequeno território palestino empobrecido, isolado e confinado entre o Egito, Israel e o Mar Mediterrâneo, onde vivem quase dois milhões de pessoas.

- Alegria, apesar da pobreza -

Entre os palestinos contactados pela AFP que puderam deixar a Faixa de Gaza, nenhum quis falar, por medo de não receber autorização para deixar o território no Natal do próximo ano.

Nabil al-Salfiti e sua esposa Faten tiveram a oportunidade de viajar, mas finalmente decidiram não fazê-lo por razões financeiras e também porque o filho não recebeu permissão.

"Não há muita alegria (em Gaza). A verdadeira alegria está em Belém, onde Cristo nasceu", lamenta Faten al-Salfiti.

No passado, as autoridades do enclave organizavam grandes festividades para o Natal, algo que não acontece desde 2007.

Mesmo ficando em Gaza, Hanadi Missak está determinada a comemorar. Vizinhos e amigos, alguns muçulmanos, irão à casa dela para celebrar.

Hanadi não se resigna: "Apesar de toda a miséria de Gaza, tento celebrar o Natal com alegria".


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