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Estado de Minas INTERNACIONAL

O marco zero da militarização da guerra às drogas


postado em 22/12/2019 15:00

Na Guerra Fria, a grande ameaça aos EUA vinha da União Soviética. Na época, Manuel Noriega, ditador do Panamá, era informante da CIA e relatava aos americanos os passos do comunismo na América Central, especialmente em Cuba. Mas o colapso do império soviético, nos anos 80, deixou um vazio entre os falcões do Pentágono. Temendo cortes no orçamento da Defesa, era preciso eleger um novo inimigo. Foi nesse contexto que o presidente George Bush pai resolveu militarizar a guerra às drogas.

Sob o comando de Noriega o Panamá se tornou o exemplo mais bem-acabado de um narcoestado. O general em quem a CIA confiava não tinha princípios e também mantinha uma relação cada vez mais amistosa com o cartel de Medellín e com traficantes da América Central.

Após fechar acordo com Pablo Escobar, ele passou a cobrar US$ 100 mil a cada voo que cruzasse o Panamá carregando cocaína para os EUA. Além disso, abriu as portas do país para que os colombianos lavassem dinheiro através do sistema bancário panamenho. Para Bush, era o alvo ideal.
Em 20 de dezembro de 1989, 24 mil soldados americanos desembarcaram no Panamá, dando início à Operação Justa Causa, que tinha o objetivo de apear Noriega do poder. Foi a primeira grande invasão planejada pelos EUA desde a Guerra do Vietnã. "Essa campanha foi o marco zero da militarização da guerra às drogas", afirmou ao Estado Russell Crandall, autor de Gunboat Democracy ("Democracia da canhoneira", em tradução livre).

Crandall afirma que um dos aspectos implícitos da invasão era que Bush precisava que ela fosse vista como uma vitória na "guerra às drogas". "O Panamá tem sido usado como santuário, paraíso de férias, centro bancário para traficantes, um lugar para ir quando a temperatura sobe. É improvável que o Panamá seja usado dessa maneira no futuro novamente", declarou na época William Bennett, czar antidrogas de Bush.

Mas as coisas não saíram do jeito que os militares americanos haviam planejado. Um dia depois da invasão, o comandante das Forças Armadas dos EUA, Colin Powell, admitiu que não sabia onde Noriega tinha se escondido. "Estamos procurando e vamos encontrá-lo", disse Powell.

O ditador panamenho, porém, jogava em casa e evitava lugares suspeitos. O primeiro deles era sua residência de luxo em Fort Amador, invadida por soldados americanos. Lá dentro, encontraram de tudo: pornografia, um pôster de Hitler, bonecos de vodu e farinha de trigo (que inicialmente acharam ser cocaína). As tropas descobriram ainda uma metralhadora, US$ 3 milhões em dinheiro vivo, garrafas de vinho israelense, conhaque francês e discos de ópera - mas nada de Noriega.
Mais tarde, os americanos ficaram sabendo que, quando os soldados pisaram no país, o general estava em um hotel com uma prostituta perto da Cidade do Panamá. Alertado por um segurança, ele fugiu. Sem pistas, o governo dos EUA ofereceu US$ 1 milhão por sua cabeça.

O mistério começou a ser desfeito na véspera do Natal, quando um carro da embaixada do Vaticano foi enviado para encontrar Noriega em um local secreto. Usando shorts e camiseta, carregando duas AK-47, Noriega entrou na representação diplomática da Santa Sé. Do lado de fora, o general Marc Cisneros passou a negociar a rendição pacífica, mas sem sucesso.

Foi quando Cisneros teve uma ideia. Sabendo da paixão de Noriega por ópera, ele mandou que os soldados montassem alto-falantes e ordenou que eles bombardeassem o prédio com clássicos do rock no mais alto volume. Na playlist, sucessos com pinceladas de ironias, como I Fought the Law, da banda britânica The Clash, Voodoo Child, de Jimi Hendrix, e Panama, de Van Halen. Nem assim o ditador saiu da toca. Em vez do panamenho, quem apareceu foram os funcionários da embaixada do Vaticano, reclamando que estavam "enlouquecendo" com o barulho.

Noriega ficou uma semana enfurnado na embaixada. No fim, monsenhor José Sebastián Laboa convenceu o ditador a se render. No dia 3 de janeiro, vestindo seu uniforme militar e segurando uma bíblia, ele saiu. Preso, foi levado para os EUA e sentenciado a 40 anos, em 1992. Saiu ao cumprir 17, por bom comportamento, apenas para ser extraditado de novo para uma cadeia na França, onde havia sido condenado a 7 anos por lavagem de dinheiro.

Em 2011, Noriega finalmente voltou para casa, mas não em liberdade. O governo francês o extraditou para o Panamá, onde foi direto para o xilindró por crimes cometidos durante sua ditadura. Diagnosticado com câncer no cérebro, ele morreu em maio de 2017. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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