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Estado de Minas ELEIÇÕES NO REINO UNIDO

À sombra do inimigo Brexit

Disputa antecipada para dia 12 no Parlamento britânico põe frente a frente trabalhistas e conservadores, a rigor com o mesmo dilema de equacionar saída da União Europeia


postado em 01/12/2019 04:00

Palácio de Westminster, sede do Parlamento, é palco de definições que já não podem ser adiadas(foto: Isabel Infantes/AFP %u2013 19/10/19)
Palácio de Westminster, sede do Parlamento, é palco de definições que já não podem ser adiadas (foto: Isabel Infantes/AFP %u2013 19/10/19)

Os líderes dos dois partidos que se alternam no poder no Reino Unido desde o pós-Segunda Guerra, em meados do século 20, têm pela frente mais 10 dias de uma campanha breve e quase monotemática para a eleição antecipada do próximo dia 12. Cada um enfrenta um desafio próprio de afirmação política. O primeiro-ministro Boris Johnson chegou à chefia do governo como vencedor de uma disputa interna no Partido Conservador, e busca o aval das urnas para o seu programa, cujo cerne é concluir a saída do país da União Europeia (UE).
 
Jeremy Corbyn conquistou a liderança do Partido Trabalhista com a bandeira do retorno às raízes sindicais, mais próximas do Marxismo, mas segue como um fator de divisão nas fileiras e no eleitorado — e, como o adversário, tem no Brexit o enigma a ser decifrado. Corbyn não economizou no vocabulário “classista” ao lançar formalmente seu programa de governo, que apresentou como “radical” e “transformador”, expressão de um partido que “não pertence aos banqueiros, aos bilionários e ao establishment”.

“É ao povo que pertence o Partido Trabalhista”, proclamou. “Nosso manifesto contém muitas medidas populares que a classe dominante vem bloqueando há uma geração”, completou, em referência à agenda liberalizante e privatista implantada por seguidos governos conservadores, desde Margaret Thatcher, nos anos 1980 — e intocadas pelo “novo trabalhismo” de Tony Blair, na virada do século.
 
Sob a batuta de Corbyn, a principal força de oposição vai às urnas com a proposta de recolocar sob controle estatal setores como as ferrovias, o correio e os serviços de energia e água. Promete injetar 83 bilhões de libras nos gastos anuais do governo até 2024 — o fim do próximo mandato de cinco anos — à custa de aumentar os impostos sobre os rendimentos mais elevados e rever benefícios fiscais concedidos às empresas. Entre outros empreendimentos de sentido “popular”, prevê a destinação de 75 bilhões de libras para construir anualmente 150 mil moradias sociais, de baixo custo.
 
Fantasma À parte o rompimento frontal com a política econômica que prevalece nas últimas quatro décadas, o trabalhismo neorradical vai em busca de votos assombrado pelo fantasma do Brexit, e por uma desvantagem na casa dos 10 pontos percentuais nas pesquisas. Derrotado no referendo de 2016, quando defendeu a permanência na UE — assim como os conservadores — o partido de Corbyn tenta decifrar o enigma do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia. O programa apresentado na última quarta-feira promete completar o processo em seis meses, depois de negociar com Bruxelas um novo acordo de “divórcio” e submetê-lo a referendo vinculante.
 
De maneira semelhante a Boris Johnson, o líder da oposição se vê entre dois fogos na questão que engessa a política britânica há três anos. O referendo de 2016 deu vitória ao Brexit em regiões industriais que foram redutos trabalhistas por décadas. A eleição de maio passado para o Parlamento Europeu reafirmou essa tendência e apontou outra, igualmente preocupante: o partido perde terreno também entre o eleitorado pró-europeu, atraído pela posição claramente anti-Brexit de legendas como os liberais-democratas e os ecologistas.
 
Porém, a situação não é muito mais fácil e tranquila para o primeiro-ministro. Boris Johnson assumiu o comando do partido e do governo em julho, após o fracasso da antecessora, Theresa May, na condução do Brexit. Venceu a disputa interna prometendo concluir a separação “por bem ou por mal”, mas acabou forçado a engolir novo adiamento, desta vez para 31 de janeiro.
 
Agora, se apresenta como “o único capaz de acabar com essa paralisia” e limpar o caminho para que o país “siga adiante para enfrentar os seus problemas, que não são poucos”. Conta, para isso, com um acordo tácito oferecido pelo Partido do Brexit, o grande vencedor das eleições europeias no Reino Unido: seu líder, Nigel Farrage, acena com a proposta de não apresentar candidatos para disputar cadeiras atualmente ocupadas por conservadores, uma ajuda providencial no sistema eleitoral britânico, baseado 100% no voto distrital.

Ei assume ataque


O grupo terrorista Estado Islâmico (EI) reivindicou a responsabilidade pelo ataque ocorrido na sexta-feira no Centro de Londres, no qual três pessoas morreram e várias foram feridas por um homem armado com faca. O comunicado do EI afirma que Usman Khan era um de seus “soldados”, mas não contém evidências de que ele era ligado ao grupo. Khan foi morto a tiros por policiais após mostrar o que parecia ser um colete suicida. De acordo com a polícia, ele foi condenado em 2012 por ameaças terroristas e liberado em dezembro de 2018 de forma condicional. Na Holanda, a polícia prendeu um homem de 35 anos suspeito de envolvimento em ataque à faca, também na sexta-feira, no Centro de Haia. Várias hipóteses sobre as motivações do agressor estão sendo consideradas.

Como é o voto


Berço quase milenar da monarquia constitucional e (mais recentemente) da democracia parlamentar, o Reino Unido é ainda hoje o modelo por excelência do parlamentarismo clássico. É a Câmara dos Comuns que forma o governo, e é no imponente edifício de Westminster que está o gabinete do primeiro-ministro. Os 650 membros do Parlamento, como são chamados oficialmente, são eleitos por circunscrições eleitorais para mandatos de cinco anos, a menos que a legislatura seja dissolvida antecipadamente. O sistema eleitoral é o de maioria relativa: em cada distrito, o candidato mais votado (em turno único) fica com a vaga. E é precisamente esse mecanismo que, segundo os críticos, distorce para cima a representação das legendas tradicionais — conservadores e trabalhistas — e para baixo a dos partidos menores.



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