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Estado de Minas

Amaya Coppens, a estudante belga que enfrenta o governo da Nicarágua


postado em 21/11/2019 15:55

Amaya Coppens, uma estudante de 25 anos de origem belga que "detesta a injustiça", foi presa pela segunda vez pelo presidente Daniel Ortega por se juntar aos protestos que exigem uma mudança no governo sandinista da Nicarágua.

Sua segunda detenção no dia 14 de novembro ocorreu quando tentava com outros opositores levar água para 11 mulheres em greve de fome na igreja San Miguel de Masaya (sul) para pedir a liberação de mais de 130 "presos políticos". O templo se encontra sitiado por policiais.

Durante sua primeira prisão de nove meses foi submetida pela polícia a longos interrogatórios. Sua mãe, Tamara Zamora, denunciou que Amaya foi intimidada sexualmente e assediada pelos guardas, mas que ela não foi estuprada.

Zamora, de nacionalidade nicaraguense, também contou à AFP que após sua segunda detenção, Coppens foi maltratada pela polícia e ficou reclusa em um calabouço pequeno, sufocante e escuro, sem beber água por dois dias.

A polícia a apresentou com o uniforme azul dos presidiários junto a outros 15 detidos acusados de portarem armas ilegais. Amaya aparece sorridente nas fotos, uma imagem que para sua mãe é sinal de "resistência e de irônia diante da injustiça".

Zamora conta que, nos dias em que a filha sofreu de sede, seus carcereiros deixaram uma torneira de água aberta no lado de fora da cela para "torturá-la", o que lhe causou uma crise de asma e hipertensão pelo estresse.

Apesar dos problemas de saúde, ela continua "firme em sua luta", disse Zamora na quarta-feira, antes de sair para levar comida para a filha no presídio El Chipote, um antigo centro de tortura policial em Manágua.

- "Água solidária" -

"Amaya, outra vez vestida de azul, Amaya outra vez levada para a prisão, Amaya outra vez golpeada por ser água solidária, vaga-lume leve", diz um poema dedicado pela escritora nicaraguense Gioconda Belli a Amaya e que foi musicalizado pelo cantor Luis Enrique Mejía.

Filha de pai belga, Amaya nasceu em 31 de outubro de 1994 em Bruxelas e pouco depois foi morar com seus pais e seus dois irmãos na Nicarágua.

A jovem fala francês e inglês fluentemente e seus amigos destacam sua personalidade alegre, amigável e solidária.

Em 2013 começou a estudar Medicina na estatal Universidade Nacional Autônoma da Nicarágua (UNAN) da cidade de León (oeste), onde em abril de 2018 tiveram início fortes protestos estudiantis.

Coppens mergulhou de cabeça no movimento que reivindicava a renúncia de Ortega e se tornou uma das figuras mais notórias entre os estudantes.

Seu pai, que na época estava na Bélgica, contou à mídia nicaraguense que conversou com ela por telefone para convencê-la a sair da Nicarágua pela crescente tensão, mas não teve sucesso.

"Não vou embora porque se eu for os outros jovens ficarão desmoralizados", justificou-se posteriormente.

- Vanguarda estudantil -

Os protestos contra Ortega eclodiram em abril do ano passado por uma reforma ao seguro social que afetava aposentados, mas a repressão exaltou os ânimos dos estudantes, que se juntaram às manifestações.

As marchas passaram a demandar a saída do presidente por causa da repressão, que deixou mais de 300 mortos e centenas de presos.

A perseguição obrigou Amaya e muitos outros estudantes a se refugiarem em "casas de segurança" em León.

Sua mãe contou que localização de seu esconderijo foi delatada e Amaya foi presa em 10 de setembro de 2018 por policiais e paramilitares, que a transferiram para a prisão por acusações de terrorismo, sequestro e porte ilegal de armas.

Ela foi presa com outras opositoras na prisão de mulheres La Esperanza, nos arredores da capital, até que em junho passado foi libertada sob uma polêmica lei de anistia que beneficiou cerca de 500 opositores, mas que anulou a possibilidade de punir os repressores.

Nos quatro meses em que esteve em liberdade sofreu assédios constantes da polícia em sua casa, mas não deixou de apoiar a luta opositora.

"A solidariedade não é crime", gritaram estudantes durante um protesti nesta semana na capital após sua nova prisão.

Amaya e outros detidos deverão permanecer presos até o final do mês, quando a justiça decidirá se existem provas suficientes para condená-los.


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