A presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez, fechou ontem as portas para a possibilidade de Evo Morales concorrer a mais uma eleição para comandar o país. Em coletiva de imprensa, Áñez disse que o ex-presidente boliviano, que está asilado no México, “não está habilitado” para se candidatar a um quarto mandato nas próximas eleições, após a anulação do pleito de outubro por “irregularidades”.
“Evo Morales não está habilitado para um quarto mandato, por isso foi toda essa convulsão (..), dom Evo Morales e dom Álvaro García não estão habilitados para um quarto mandato”, enfatizou Áñez. O partido do ex-presidente, o Movimento ao Socialismo (MAS) “tem direito de participar nas eleições gerais”, completou ela, recomendando à legenda “que vá buscando candidato".
Morales, que governou a Bolívia por quase 14 anos, foi habilitado por uma polêmica sentença do Tribunal Constitucional em 2017 para candidatar-se ao quarto mandato, ao considerar que era “um direito humano”. A decisão foi adversa a um referendo nacional, que havia negado, um ano antes, tal possibilidade a Morales.
Diante das objeções de que foi proclamada sem o quórum regulamentar, o mesmo tribunal avaliou, na segunda-feira, a eleição de Áñez, com uma interpretação jurídica que contempla apoio “mínimo constitucional” em um contexto de crise política, para evitar que o país tenha um prolongado vácuo de poder, segundo o analista Carlos Borth.
A jornalistas, Áñez acrescentou: “O que nós queremos agora é transparência, é independência de poderes, que (o tribunal) atue de acordo com as normas”. Na mesma linha, o ex-candidato presidencial Carlos Mesa, que pediu eleições no tempo “mais curto possível”, disse que Morales não pode ser habilitado como candidato, pois cometeu um “delito”: “O senhor Morales é autor de um grave delito que é passível a uma sanção penal e a fraude foi cometida contra o país, mas em particular contra mim”.
Mesa reivindicava seu direito a um segundo turno, antes de as eleições serem anuladas pelo próprio Morales, após relatório da Organização de Estados Americanos (OEA) ter encontrado “graves” irregularidades no processo eleitoral.
Asilo na argentina O presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, afirmou ontem, em Montevidéu, que oferecerá asilo político ao ex-presidente boliviano Evo Morales depois de sua posse em 10 de dezembro, como fez o México. Durante visita ao presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, Fernández disse que “a Argentina é casa de todos os bolivianos”.
“No dia que eu chegar à presidência será uma honra receber Evo Morales e (o ex-vice-presidente da Bolívia) Alvaro García Linera na Argentina”, disse, diferenciando-se do atual presidente argentino, Mauricio Macri: “Se fosse eu o presidente, teria oferecido o asilo no primeiro dia”.
Fernández foi anfitrião na semana passada, em Buenos Aires, de uma reunião do Grupo de Puebla, que reúne dirigentes de esquerda da América Latina. Morales está asilado no México desde a terça-feira, depois de renunciar no domingo em meio a protestos populares.
Enquanto isso...
… Guaidó tenta reacender campanha contra Maduro
Estimulado pela situação da Bolívia, onde Evo Morales renunciou pela pressão popular e a intervenção de militares, o líder opositor venezuelano Juan Guaidó tentará, amanhã, reacender novamente a chama dos protestos contra o presidente Nicolás Maduro. Guaidó convocou manifestações, mas a acolhida que pode ter é incerta após seis meses sem reeditar as grandes manifestações que acompanharam sua autoproclamação como presidente interino da Venezuela, em janeiro. Com o apoio de cerca de 50 países liderados pelos Estados Unidos, Guaidó disse sentir um “frescor de liberdade” após a renúncia de Morales e traça um paralelo entre a crise boliviana e a exigência da oposição de que Maduro “cesse a usurpação” e que novas eleições sejam realizadas, já que afirma que sua reeleição, em 2018, foi “fraudulenta”. Maduro, por sua vez, também pediu aos seus apoiadores que se mobilizem e alertou a oposição de que não tolerará uma tentativa de “golpe de Estado” como a sofrida por Morales com a cumplicidade de Washington.