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Estado de Minas

Presidente boliviana inicia diálogo com partido de Morales


postado em 14/11/2019 21:55

O governo da presidente interina da Bolívia, Jeanine Áñez, iniciou nesta quinta-feira (14) um diálogo com o Movimento Ao Socialismo (MAS), partido de Evo Morales, para pacificar o país convulsionado após a renúncia do presidente socialista.

"Estamos em uma mesa de diálogo, acreditamos que é possível pacificar o país", informou o ministro da Presidência, Jerjes Justiniano.

Participam do diálogo delegados do novo governo e congressistas do Movimento Ao Socialismo, entre eles a senadora Adriana Salvatierra, ex-presidente da Câmara alta, e a deputada Betty Yañíquez.

Justiniano disse que as negociações estão em recesso para se estudar as exigências do MAS para estabelecer um acordo.

Em meio a pedidos de renúncia de Áñez, o novo governo tenta pôr fim às manifestações violentas e aos confrontos, na quarta semana de protestos que já deixaram 10 mortos e cerca de 400 feridos.

"Se querem uma lei que lhes garanta que não haverá perseguição política, perfeito", afirmou Justiniano.

"Pediram, inclusive, a possibilidade de que Evo Morales possa vir livremente. Não tem problema. É mais um cidadão, é o ex-presidente", afirmou Justiano.

"Se chegarmos a um âmbito de pacificação, têm todas as condições para ficarem no território nacional".

Áñez declarou nesta quinta-feira que "Evo Morales não está habilitado para um quarto mandato", pelo qual, não pode participar das próximas eleições, de data incerta, mas esclareceu que o partido do ex-governante "tem direito de participar nas eleições gerais".

As tensões continuaram na tarde desta quinta-feira em La Paz, depois que uma marcha formada por partidários de Morales chegou de El Alto, a cidade vizinha, reduto do líder de esquerda.

Os defensores do ex-presidente gritavam "Áñez golpista, fora do palácio", "Volta, Evo".

"Estamos pedindo a renúncia da presidente, essa presidente racista, que essa golpista vá embora", disse à AFP Juan Gutiérrez, um dos manifestantes, vestido com um poncho vermelho que identifica os membros de uma organização camponesa andina que apoia Morales.

Na quarta-feira, uma manifestação em apoio a Morales terminou com choques com a polícia perto da praça Murillo, enquanto Áñez empossava no Palácio Quemado a nova cúpula militar.

Os incidentes de quarta-feira se prolongaram até a noite e culminaram em cerca de vinte detidos, segundo a imprensa local.

Inicialmente, os manifestantes eram adversários de Morales, mas desde domingo, após a renúncia, são seus partidários que saem às ruas para enfrentar a polícia.

Nesta quinta-feira, La Paz tentava voltar à normalidade, embora as universidades tenham suspendido as aulas e muitos pais tenham preferido não levar seus filhos às escolas, por medo da violência.

Parte considerável do transporte público funcionava normalmente, embora os acessos à Praça Murillo, onde fica a sede de governo, continuem fechados pela polícia.

- Reclamação por atividade de Morales -

Áñez anunciou que apresentará uma queixa diplomática ao México por permitir atos políticos de Morales.

"Temos uma chanceler (Karen Longari) que fará a representação que corresponda à ruptura desse protocolo" de asilo político, disse em coletiva de imprensa.

O governo mexicano reagiu afirmando que o "direito à liberdade de expressão está garantido pelo artigo 6 constitucional, assim como o artigo 13 da Convenção Americana sobre os Direitos Humanos (1969), nenhum dos quais faz distinção entre nacionais e estrangeiros, ou sobre a condição em que se encontra no país".

Do exílio no México, Morales pediu a organismos internacionais, como a ONU e à Igreja Católica, por meio do papa Francisco, que acompanhem um "diálogo para pacificar" a Bolívia.

"A violência atenta contra a vida e a paz social", escreveu no Twitter Morales, que renunciou pela pressão das Forças Armadas em meio a violentos protestos que eclodiram após as eleições de outubro.

O ex-presidente boliviano Carlos Mesa (2003-2005), segundo colocado nas eleições, também criticou o México por permitir atividades políticas de Morales.

- Relação com o Congresso -

Um desafio para Áñez será a relação com o Congresso, onde o Movimento ao Socialismo goza de ampla maioria. Nesta quinta-feira, Áñez o acusou de "continuar incitando à violência" e pediu que ele colabore para a normalização do país.

Áñez destacou que seu único "norte" é convocar novas eleições, para o qual precisa nomear sete membros do Tribunal Supremo Eleitoral, que devem ser ratificados pelo Congresso.

Na sessão da última quarta-feira, a Câmara dos Deputados elegeu como seu novo presidente o socialista Sergio Choque.

O Senado não se reúne desde terça-feira, após uma sessão sem quórum regulamentar na qual Áñez se proclamou presidente interina.

- Reconhecimento a Guaidó -

Em sua primeira medida internacional, Áñez reconheceu o líder opositor Juan Guaidó como presidente da Venezuela, rompendo a aliança com Nicolás Maduro de Morales.

Maduro denunciou um "golpe de Estado" contra seu aliado.

O presidente eleito da Argentina se mostrou disposto a dar asilo a Morales. "No dia que eu chegar à presidência vai ser uma honra receber Evo Morales e (o ex-vice-presidente da Bolívia) Álvaro García Linera na Argentina", disse.

Na quarta-feira, os Estados Unidos reconheceram Áñez, assim como Brasil, Guatemala, Colômbia e até mesmo a Rússia, com algumas ponderações.

A chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, pediu que se evite "um vácuo de poder que possa ter consequências para todo o país".

O secretário-geral da ONU ressaltou nesta quinta-feira a necessidade de celebrar novas "eleições transparentes" na Bolívia, e designou um enviado para o país andino.


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