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Estado de Minas

Imagem do Chile é abalada por cancelamento de eventos devido a convulsão social


postado em 31/10/2019 00:37

O Chile cancelou nesta quarta-feira (30) um encontro de líderes do Fórum de Cooperação da Ásia Pacífico (Apec) e da cúpula mundial do clima da ONU COP25, que seriam celebrados em Santiago em poucas semanas, em meio a uma convulsão social no país mais estável da América Latina.

O presidente Sebastián Piñera anunciou o cancelamento dos dois eventos, organizados há meses e que tinham o Chile como vitrine, para se dedicar à restituição da ordem pública após 12 dias de protestos, muitos violentos.

No entanto, a ministra dos Esportes, Cecilia Pérez, confirmou que Santiago sediará a final única da Copa Libertadores-2019, disputada por Flamento e River Plate em 23 de novembro no estádio Nacional.

Piñera explicou que a prioridade será impulsionar uma agenda social que responda às demandas por melhor distribuição da riqueza em um país que exibe um modelo econômico de ampla abertura aos mercados.

"Nosso governo, com profunda dor, porque essa é uma dor para o Chile, resolveu não realizar a cúpula da Apec (...) e tampouco a cúpula da COP25", disse o presidente.

Piñera explicou que o enfoque principal será promover uma agenda social que atenda às demandas cidadãs de uma melhor distribuição da riqueza em um país que exibe um modelo econômico de ampla abertura dos mercados.

Ao visitar policiais feridos nas manifestações, o presidente afirmou que está aberto "a analisar as reformas estruturais depois de escutar os chilenos".

"Não descarto qualquer reforma estrutural. Este é o tempo de escutar as pessoas. O povo quer melhores salários, aposentadorias, segurança e serviços", destacou Piñera.

A Apec, que aconteceria nos dias 16 e 17 de novembro em Santiago, seria cenário para China e Estados Unidos assinarem um acordo para pôr fim à guerra tarifária. A presença dos presidentes americano, Donald Trump, e chinês, Xi Jinping, já estavam confirmadas. Vladimir Putin cancelou sua participação na terça-feira.

Em um comunicado, a diretora executiva da Apec, Rebecca Santa Maria, apoiou a decisão do Chile e agradeceu "por defender incansavelmente um crescimento mais inclusivo ao longo deste ano em que foi país anfitrião" desse fórum que reúne as 21 economias da Ásia-Pacífico, entre elas Japão, China, Estados Unidos, Canadá e Rússia.

Ela também destacou a prioridade dada pelo Chile ao "empoderamento econômico das mulheres e à pequena empresa" e indicou que "todos os membros da Apec continuarão avançando nessa agenda crucial para se assegurar de que todas as comunidades da Ásia-Pacífico colham os benefícios do crescimento econômico e da integração", e acrescentou que o próximo encontro será em 2020 na Malásia.

Para a COP25, prevista para acontecer entre 2 e 13 de dezembro, se esperava a presença em Santiago de cerca de 25.000 delegados, junto à ativista sueca Greta Thunberg, para pressionar por medidas mais ambiciosas que permitam baixar as emissões de carbono que provocam o aquecimento global, fenômeno que impacta fortemente o Chile.

"Trata-se de um enorme fracasso para o governo e também para as demandas ambientais enfrentadas pelo país e que não será fácil de superar", comentou Matías Asun, diretor nacional do Grenpeace.

"Perdemos uma oportunidade histórica (...) Tratava-se do evento em que se assumiriam os compromissos e desafios da emergência climática que o mundo enfrenta", acrescentou Asun.

Até o momento não se sabe onde acontecerá a cúpula, que inicialmente seria realizada no Brasil, mas que Jair Bolsonaro, ao chegar à Presidência, se negou a sediar. Na época da desistência brasileira, Piñera assumiu o desafio em uma clara tentativa de se firmar como líder regional em temas ambientais.

- Sinal de enfraquecimento -

Enquanto o país digeria a magnitude dos anúncios desta quarta-feira, milhares de pessoas se concentraram nos arredores do palácio presidencial de La Moneda, na maior concentração desde que a crise explodiu em 18 de outubro, provocando a queda da popularidade de Piñera (14%).

"Esta foi uma decisão muito difícil", repetiu Piñera. "Baseamos nossa decisão em um sábio princípio de senso comum: quando um pai tem problemas, sempre tem que privilegiar a sua família em relação a outras opções. Do mesmo modo, um presidente sempre tem que colocar seus próprios compatriotas acima de qualquer outra consideração", acrescentou.

Os protestos não cessam em Santiago e nas principais cidades do Chile. Nesta quarta-feira, vários sindicatos se juntaram a essas manifestações, que paralisam o país, com o comércio e várias atividades suspensos ou funcionando apenas algumas horas por dia.

Para analistas, sem aplacar o descontentamento, o cancelamento das duas reuniões representa um sinal de enfraquecimento do governo de Piñera.

Ambos os cancelamentos podem ser interpretados "como um sinal de enfraquecimento e de aprofundamento do conflito", disse à AFP Octavio Avendaño, analista da Universidade do Chile.

Com essas decisões "pareceu que (a crise) não pode ser resolvida no curto prazo e nesse sentido, a imagem (de Piñera) pode ser afetada pela escassa capacidade para conseguir responder e atenuar uma situação de conflito", acrescentou.

Nesta quarta-feira, o governo chileno recebeu delegados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, incluindo a ex-presidente chilena Michelle Bachelet, que verificará as queixas de abusos cometidos pelas forças de segurança durante os protestos.

"Foi uma primeira reunião, uma reunião protocolar. Recebemos três dos quatro membros da delegação do Alto Comissariado das Nações Unidas que estão iniciando sua visita oficial hoje", disse Lorena Recabarren, subsecretária de Direitos Humanos do Chile.

A procuradoria do Chile anunciou na noite desta quarta-feira que investiga a morte de 23 pessoas na onda de protestos, incluindo cinco por ação de agentes do estado e duas em delegacias da polícia.

"A @FiscaliadeChile mantém abertas 23 investigações por mortes ocorridas no contexto do estado de exceção", revelou a procuradoria em sua conta oficial no Twitter.

A mensagem traz uma relação dos falecidos, incluindo 16 mortos "durante a suposta comissão de crimes 'comuns'", cinco "por ação de agentes do Estado" e dois "sob custódia do Estado".

As últimas duas vítimas são dois homens que morreram em delegacias policiais, segundo a procuradoria.


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