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Estado de Minas

Manifestações continuam no Chile, e muitos querem voltar à normalidade


postado em 24/10/2019 18:13

O Chile enfrentava um novo dia de manifestações nesta quinta-feira (24), depois dos dias de tumultos sociais que totalizam 18 mortes e que não parecem ceder, em um país onde muitos querem voltar à vida normal, enquanto outros preferem continuar nas ruas em busca de uma mudança profunda no sistema econômico.

Diante da multiplicação de denúncias de supostos abusos por parte das forças do Estado, que desde sábado estão nas ruas, a Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, a ex-presidente chilena Michelle Bachelet, anunciou que havia "decidido enviar uma missão de verificação para examinar" a situação no país.

A Central Unitária de Trabalhadores (CUT) e cerca de 20 organizações sociais convocaram um segundo dia de paralisação nesta quinta-feira, mas, pela manhã, muitos habitantes foram trabalhar no centro de Santiago, e o comércio abriu timidamente suas portas.

"Pela manhã, vemos muito movimento, as pessoas estão se mobilizando, mas à tarde tudo fica difícil e os gases começam e não há como trabalhar", disse Maicol Rojas, um peruano de 50 anos que vende comida em frente à sede do governo.

Diante do clima agitado, as Forças Armadas, encarregadas da segurança das ruas de Santiago, decretaram nesta quinta o sexto toque de recolher consecutivo para a capital, em meio a violentos protestos e saques em várias partes do país.

"O chefe da Defesa Nacional da região metropolitana decretou um toque de recolher das 22h00 de 24 de outubro às 04h00 de 25 de outubro", informou o Exército em sua conta no Twitter.

A fonte afirmou ainda que assim será mantido o cronograma da medida tinha na quarta-feira.

A vice-secretaria do Interior reportou nesta quinta uma redução nas últimas horas dos atos violentos, como saques e incêndios, sobretudo na periferia de Santiago, vinculados aos protestos.

Nas últimas horas "não se registraram mortos nos incidentes reportados em nível nacional" e 735 pessoas foram detidas, "o que dá conta de uma diminuição em relação ao dia de ontem, em que houve 979 detidos".

Enquanto isso, "os eventos graves chegaram ao número de 126", o que também reflete uma redução, segundo um boletim oficial, que contabilizou em 424.000 a assistência às manifestações convocadas em todo o país na quarta-feira.

No sábado, após uma sexta-feira de violentos protestos pelo qumento de quase 4 centavos na passagem do metrô, foi decretado estado de emergência no país. Depois, a pauta dos manifestantes incluiu outras demandas sociais, com saques em supermercados e empresas, além de queima de várias estações de metrô.

O presidente Sebastián Piñera anunciou mais cedo nesta quinta um plano para acabar com o toque de recolher aplicado por cinco dias consecutivos em várias regiões do país desde que uma crise social teve início na semana passada.

"Estamos trabalhando em um plano para normalizar a vida do nosso país (...) para poder terminar com o toque de recolher e, com sorte, também poderemos suspender o estado de emergência", disse o presidente em uma mensagem à imprensa.

Já o ministro das Relações Exteriores do Chile, Teodoro Ribera, confirmou a realização do fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC), nos dias 16 e 17 de novembro em Santiago, conforme planejado.

Além da missão anunciada por Bachelet, Ribera informou que Piñera havia convidado para visitar o Chile a ex-presidente chilena e José Miguel Vivanco, diretor da divisão das Américas da Human Rights Watch.

O estado de emergência foi decretado no sábado, após um violento dia de protestos na sexta-feira pelo aumento de quase 4 centavos no bilhete do metrô. Depois, a pauta dos manifestantes incluiu outras demandas sociais, com saques em supermercados e empresas, além de queima de várias estações de metrô.

Até agora, chega a 18 o número de mortos pelas manifestações, entre eles cinco agentes do Estado, em meio a crescentes denúncias de abuso policial e militar.

Um relatório mais recente do Instituto Nacional de Direitos Humanos (NHRI) também relata que 535 pessoas ficaram feridas - 239 delas por armas de fogo - e 2.410 foram detidas.

Com os militares vigiando as estações das três linhas do metrô que funcionam parcialmente, muitos dos sete milhões de habitantes de Santiago tentaram retornar à normalidade sete dias após o início da crise.

No dia anterior, quatro hotéis foram saqueados e moradores usando coletes amarelos realizaram rondas de vigilância em comunidades periféricas para evitar roubos e saques.

- Crise que não cede -

As manifestações se tornaram um movimento muito maior, heterogêneo e sem liderança identificável, o que coloca outras demandas sobre a mesa, principalmente um aumento nas pensões muito baixas no sistema privado, que permanece como uma herança da ditadura de Augusto Pinochet (1973- 1990).

"Esta já é a reivindicação de um país inteiro. Estamos cansados", gritou um manifestante no meio de uma multidão que fez um panelaço nas ruas de Santiago.

O anúncio de uma série de medidas por parte do presidente Piñera na terça-feira parece não ter tido o efeito desejado.

O governo prometeu uma melhoria nas pensões dos mais pobres, a suspensão de um aumento de 9,2% nas contas de luz, um aumento no salário mínimo, mais impostos para aqueles com renda mais alta e uma diminuição nos gastos parlamentares e altos salários públicos.

"Esperávamos que esse momento de conflito social aumentasse a sensibilidade, mas são as mesmas propostas de meses atrás", lamentou Izkia Siches, presidente da Faculdade de Medicina, também presente nas mobilizações.

Na terça-feira, Piñera pediu "perdão" e reconheceu sua "falta de visão" para antecipar a crise, dois dias depois de afirmar que o país estava "em guerra".


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