Longas filas para embarcar nos ônibus, o metrô funcionando parcialmente e um enorme congestionamento marcam as primeiras horas desta segunda-feira (21), em Santiago, no primeiro dia útil após a violenta explosão social do fim de semana, com saques, incêndios e enfrentamentos nas ruas, que deixaram 11 mortos.
Depois de uma noite um pouco mais tranquila do que as duas anteriores, marcadas por saques e por ataques incendiários, tenta-se, com grande dificuldade, retomar as atividades habituais em Santiago. Bem menos empregadores cancelaram a jornada de trabalho hoje, mas as aulas continuam suspensas em praticamente todos os colégios e universidades.
A falta do metrô - eixo do transporte público, com cerca de três milhões de passageiros por dia - é o que mais causa estranhamento nesta cidade de quase sete milhões de habitantes, agora obrigados a fazer longas filas para tomar o ônibus, ou para ter acesso às poucas estações que abriram.
A poucos metros da Casa de Governo, em pleno centro de Santiago, a estação de metrô La Moneda abriu suas portas depois das 7h locais (7h em Brasília), permitindo o ingresso de dezenas de pessoas que esperavam impacientes para poder embarcar. Vários soldados controlavam o fluxo de entrada.
- 'Em paz e na calma' -
"A cidade está em paz e na calma", afirmou cedo nesta segunda o chefe militar responsável pela segurança, Javier Iturriaga, após sobrevoar a capital chilena.
A declaração contraria o tom alarmista da declaração de domingo à noite do presidente Sebastián Piñera, segundo o qual "Estamos em guerra contra um inimigo poderoso".
No centro de Santiago, ainda é grande a presença de militares e de policiais. Os pequenos comércios se atreveram a abrir suas portas parcialmente, mas os grandes estabelecimentos - supermercados e shoppings, em sua maioria - decidiram permanecer fechados.
A virulência dos protestos - deflagrados com violência na sexta-feira após o aumento da passagem de metrô, mas que se tornaram uma grande convulsão social - deixou muitos perplexos e com medo. Ao mesmo tempo, a sociedade se mantém na expectativa de mudanças no modelo econômico ultraliberal que acentuou as desigualdades na sociedade chilena.
"Sabia-se que isso estava vindo. O governo não fez nada. Não foi apenas o bilhete do metrô que deflagrou isso e terminou em vandalismo. Se o governo não fizer coisas contundentes, medidas para melhorar os salários, a saúde, a previdência...", disse à AFP Carlos Lucero, de 30 anos, que vende sanduíches no Paseo Ahumada.
Além dos 11 mortos, as autoridades informaram que pelo menos duas pessoas foram baleadas, e quase 1.500 detidas, na pior explosão social em mais de três décadas no país.
- Coletes amarelos -
Com duas noites consecutivas de toque de recolher após a decretação do estado de emergência em várias cidades do Chile, em meio a saques em todo país, os moradores se organizaram para evitar novos episódios na madrugada de domingo.
Armados com pedaços de pau e com os coletes amarelos que popularizaram os recentes manifestos na França, defenderam suas casa, supermercados e o comércio de bairro que ficaram de pé e não foram vandalizados.
"A ideia foi nos organizarmos e nos identificarmos entre os moradores, por isso colocamos os coletes amarelos.
Os moradores fizeram rondas de vigilância junto com policiais e militares, que lhes permitiram sair às ruas apesar do toque de recolher.
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