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Estado de Minas

Indígenas ocupam Quito na véspera de protesto contra um governo encurralado


postado em 08/10/2019 18:43

Milhares de indígenas se concentram nesta terça-feira (8) em Quito, na véspera de um grande protesto contra o presidente equatoriano Lenín Moreno que, encurralado, ofereceu diálogo aos manifestantes, aos quais chamou de 'irmãos'.

"Há diálogo para os irmãos indígenas, que lastimavelmente têm necessidades, e nisto estamos de acordo", disse o presidente à imprensa em Guayaquil, para onde transferiu a sede do governo devido devido à mobilização prevista para a quarta-feira.

Na sede do governo regional, onde está despachando, o presidente afirmou que "há um dinheiro que vai deixar de ser gasto, que é o que gera a eliminação do subsídio à gasolina".

"Este recurso estará destinado aos mais pobres, que fique nas mãos dos que mais necessitam", declarou.

Na quarta-feira passada, Moreno eliminou subsídios da ordem de 1,3 bilhão de dólares ao ano sobre os combustíveis mais utilizados no país petroleiro, provocando altas como a do diesel, que subiu 123%, e uma comoção social em repúdio aos reajustes econômicos.

As manifestações também afetaram a economia do país. A produção diária de petróleo, de 531.000 barris, caiu 31% devido à ocupação de poços na Amazônia.

A mobilização indígena, iniciada no fim de semana em várias províncias, bloqueou dezenas de vias e desatou violentos confrontos com forças de ordem. Em Quito, milhares lotam locais no centro da capital, onde há forte presença militar.

Novos confrontos foram registrados nesta terça na capital equatoriana entre manifestantes e a força pública perto da sede sitiada do Legislativo equatoriano. Mas policiais e militares conseguiram desalojar os manifestantes que ocuparam por um período a sede do Legislativo.

Na véspera também foram registradas tentativas de saque e ocupação de prédios oficiais, como o do Parlamento, embora os líderes da poderosa Confederação de Nacionalidades Indígenas (Conaie) tenha se distanciado dos excessos e dito que houve infiltrados nos protestos.

"O governo nacional tem tentado difamar, manchar nossa marcha, dizendo que estamos fazendo atos de vandalismo, atos de saque, atos de roubo", destacou Leonidas Iza, presidente do Movimento Indígena e Camponês da província andina de Cotopaxi.

Apesar do estado de exceção que vigora desde a quinta-feira e das ofertas de diálogo do governo, os protestos não cedem, e os indígenas que chegaram a Quito mantêm os jornalistas à distância com paus e ameaças.

Na segunda-feira, Moreno foi forçado a mudar seu gabinete para Guayaquil diante do assédio ao hoje desocupado palácio presidencial. Nesta cidade portuária, os militares também estão mobilizados, enquanto a capital está parcialmente paralisada devido à escassez de transporte e à suspensão das aulas.

"O déspota (presidente venezuelano, Nicolás) Maduro ativou, junto com (o ex-presidente equatoriano Rafael) Correa seu plano de desestabilização", disse Moreno cercado do alto comando militar, que até o momento se mantém junto ao governo.

- Chamado a eleições -

Atingido pelo alto endividamento e pela falta de liquidez, o Equador está envolvido na pior espiral de protestos desde 2007.

Moreno desatou a ira popular com o desmonte dos subsídios acordado com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para obter créditos de 4,209 bilhões de dólares. Consequentemente, os preços dos combustíveis dispararam.

Em pronunciamento na televisão, o chefe de Estado de 66 anos culpou diretamente Correa de tentar derrubá-lo.

No entanto, do exterior o ex-presidente negou nesta terça-feira as acusações e pediu a antecipação de eleições diante do que descreveu como uma "grave comoção social".

"Aqui não há golpismo. Os conflitos na democracia se resolvem nas urnas e é exatamente o que pedimos: antecipar eleições", disse.

Moreno e Correa (2007-2017) mantêm uma disputa pelo poder que mergulhou o governo em uma crise.

O ex-presidente vive na Bélgica e enfrenta uma ordem de captura no Equador por suposto crime que lhe atribui a procuradoria desde antes do início dos protestos, na semana passada.

A Conaie, por sua vez, também afirmou que "se desvincula da plataforma golpista do correismo".

"Nossa luta é pela saída do #FMI do Equador. NÃO permitiremos aos que nos criminalizaram por dez anos se aproveitarem da nossa luta e da do povo equatoriano. Miseráveis!", escreveu no Twitter.

Segundo as autoridades, os fortes protestos sociais, como não se viam desde que Correa assumiu o poder em 2007, deixaram um civil morto, 73 feridos (inclusive 59 militares) e 570 detidos (a maioria por atos de vandalismo).

- Apoio a Moreno e pedidos de moderação -

Sete países latino-americanos, entre eles o Brasil, rejeitaram nesta terça "toda ação" do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, e seus aliados para "desestabilizar" o Equador.

"Os governos de Argentina, Brasil, Colômbia, El Salvador, Guatemala, Peru e Paraguai manifestam seu repúdio categórico a qualquer tentativa desestabilizadora dos regimes democráticos legitimamente constituídos e expressam seu firme apoio às ações empreendidas pelo presidente Lenín Moreno", indicou a chancelaria colombiana em um comunicado difundido em Bogotá.

Os sete países condenaram, ainda, qualquer influência de Maduro, a quem se opõem, e seus aliados para "desestabilizar" o presidente equatoriano.

Mais cedo, a secretaria-geral da Organização dos Estados Americanos, chefiada por Luis Almagro, condenou os "atos de violência" registrados durante os protestos no Equador e pediu em um comunicado, que "os atores políticos e sociais resolvam suas diferenças pela via pacífica".

A chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, também pediu "moderação" e "diálogo" no país.

Em conversa com seu colega equatoriano, José Valencia, Mogherini "lembrou que os protestos sociais dentro da lei são legítimas, mas devem continuar sendo respeitosas e pacíficas", segundo o comunicado do Serviço Europeu de Ação Externa (SEAE).

Mogherini pediu a "todos os atores" a "agir com moderação e evitar uma escalada maior", e elogiou a oferta de mediação da Igreja e da ONU pela "necessidade de um diálogo construtivo".

Os Estados Unidos, aliados de Moreno, disseram que acompanham a situação de perto no país, onde manifestações provocaram a queda de três governantes entre 1997 e 2005.


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