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Estado de Minas

Candidata drusa quer quebrar telhado de vidro nas legislativas israelenses


postado em 15/09/2019 08:31

Modelo de integração para alguns e símbolo de emancipação para outros, Gadeer Kamal Mreeh é a primeira mulher drusa eleita deputada israelense. Mergulhada novamente em uma campanha eleitoral, seu desafio será emendar a lei que define Israel como um "Estado judaico".

Diante de uma fileira de mulheres sentadas com suas longas túnicas pretas e seus véus brancos cobrindo-lhes os cabelos, a vestimenta tradicional das mulheres drusas, Gadeel Kamal Mreeh chama atenção com seu terninho preto.

"Estamos orgulhosas de você", diz uma das participantes da reunião, dedicada à exposição do programa político da candidata em seu povoado, Daliat el-Carmel, nas colinas verdes do norte de Israel.

Mreeh, de 35 anos, tornou-se a primeira mulher drusa a entrar na Knesset, o Parlamento israelense, em abril passado. Diante da impossibilidade de formar um governo, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, decidiu dissolver o Parlamento, e Mreeh voltou a fazer campanha para as legislativas de 17 de setembro.

A candidata ocupa o 25º lugar na lista do partido de centro Azul e Branco, do general reformado Benny Gantz, principal adversário de Netanyahu, e tem grandes chances de chegar ao Parlamento.

"É a única forma de mudar as coisas", diz à AFP de seu povoado, na Galileia. "É preciso mandar Bibi (diminutivo de Netanyahu) para casa e tentar fazer Israel encontrar de novo um pouco de sensatez", acrescenta.

- "Consegui!" -

O país se radicaliza, segundo esta candidata. Ela cita como exemplo a lei votada em 2018, que define Israel como um "Estado-nação judaico". Sua luta será tornar esta lei sem efeito.

"É a razão, pela qual entrei na política: para restabelecer a igualdade", diz Mreeh, a primeira mulher não judia a apresentar o informativo em hebraico em uma rede de TV nacional.

A lei do Estado-nação judaico concede aos judeus o direito "único" à autodeterminação em Israel e proclama que o hebraico é a única língua oficial do país. Este texto é considerado discriminatório por seus detratores e criticado pelas minorias do país, como os palestinos de nacionalidade israelense e os drusos.

Cerca de 140 mil drusos vivem principalmente no norte de Israel e representam 1,5% da população. Todos são cidadãos israelenses, salvo os residentes nas Colinas de Golã, região síria ocupada por Israel em 1967 e posteriormente anexada. A comunidade internacional, exceto os Estados Unidos, nunca reconheceu esta anexação.

Mreeh insiste em uma campanha de respeito pelas minorias israelenses. "Sou mulher e pertenço a uma comunidade minoritária", diz esta política. "Consegui! Não foi fácil, mas garanto que todos podemos conseguir", clama diante das presentes.

- Uma nova voz -

A estudante de Direito Nisrin Abu Asale, de 25 anos, observa Mreeh, sorridente. "Ela me representa totalmente, é a voz da nova geração", diz.

"É uma fonte de inspiração", acrescenta Yara Zahereldin, estudante de Ciência Política de 21 anos, mostrando-se especialmente satisfeita com o discurso da candidata sobre a igualdade de oportunidades.

O "efeito Mreeh" vai além das mulheres jovens. A candidata também recebeu elogios do líder espiritual da comunidade drusa, Muafak Tarif.

Nas últimas décadas, os drusos votaram no Likud, o partido de direita de Benjamin Netanyahu, mas, nas eleições de abril, optaram por Benny Gantz, explica à AFP Yusri Jaizran, especialista em História do Oriente Médio da Universidade Hebraica de Jerusalém.

Tudo indica que esta situação voltará a se repetir em 17 de setembro. "Deve-se, principalmente, à frustração dos drusos, que se sentiram traídos pela lei do Estado-nação", explica o especialista.

"A presença de Gadeer Kamal Mreeh na lista do partido centrista é inegavelmente um argumento adicional favorável", conclui.


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