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Estado de Minas

Apesar de polêmica, 'J'accuse' de Polanski entra em competição em Veneza


postado em 30/08/2019 21:02

Apesar da polêmica em torno de sua seleção na competição, Roman Polanski estreou nesta sexta-feira no Festival de Veneza seu filme sobre o caso Dreyfus, "J'Accuse", no qual vê um paralelo com sua situação, pois se considera "um assediado".

O filme do diretor franco-polonês de 86 anos foi exibido nesta sexta à noite na cidade italiana, com críticas mistas, e compete com 21 filmes pelo Leão de Ouro.

"A perseguição faz parte de sua vida. Sei disso muito bem porque estamos casados há 30 anos", disse a atriz francesa Emmanuelle Seigner, esposa do cineasta e uma das protagonistas do filme, durante a coletiva de imprensa de apresentação.

Polanski não compareceu ao festival porque corria risco de ser extraditado aos Estados Unidos por sua condenação por estupro nos anos 70 de uma menor.

"Estou familiarizado com muitos dos funcionamentos do aparelho de perseguição que aparece no filme, e isso me inspirou claramente", afirmou em uma entrevista divulgada com o kit de imprensa do filme.

No tapete vermelho desfilaram Seigner, o ator Jean Dujardin (ganhador do Oscar por "O Artista"), que interpreta o tenente-coronel Georges Picquart, personagem principal do filme, e Louis Garrel, que encarna Alfred Dreyfus.

As primeiras críticas destacaram as qualidades cinematográficas do filme. O jornal britânico The Guardian qualificou o longa de "belo e comprometido", a revista americana especializada Variety o considerou "disposto de forma grandiosa" e a britânica Screen o considerou "sóbrio" e "meticuloso".

Para a The Hollywood Reporter, porém, o "resultado carece estranhamente de emoção", enquanto vários críticos manifestaram suas reservas em relação à decisão de Polanski de utilizar o filme para se referir a sua história pessoal.

O filme conta o caso Dreyfus do ponto de vista do tenente-coronel Georges Picquart, chefe do serviço de inteligência e figura-chave no desfecho do caso.

Ele divulgou as evidências que permitiram inocentar o capitão Dreyfus, francês de origem alsaciana e de confissão judaica acusado de traição, pondo fim a esse grande escândalo da Terceira República na França, que durou doze anos (1894-1906).

Roman Polanski, ainda processado pela justiça americana pelo estupro em 1977 de uma adolescente, disse em várias ocasiões que via nesse caso ecos de sua própria história.

"Fazer um filme como esse me ajudou muito. Na história, encontro coisas em que me reconheço, vejo a mesma determinação de negar os fatos e de me condenar por coisas que não fiz", disse em entrevista ao escritor Pascal Bruckner.

"A maioria das pessoas que me assedia não me conhece e não sabe nada sobre o caso", acrescenta.

- "Histórias absurdas" -

Questionado sobre a "perseguição" que ele sofreu desde o assassinato de sua esposa Sharon Tate, em 1969, o cineasta enfatiza que "é como uma bola de neve".

"Cada estação adiciona uma nova camada", acrescenta, com "histórias absurdas contadas por mulheres que nunca vi na minha vida, que me acusam de coisas que supostamente aconteceram há mais de meio século".

Três novas mulheres apresentaram acusações contra ele nos últimos anos. Em 2010, a atriz britânica Charlotte Lewis o acusou de "abusar sexualmente" dela aos 16 anos em 1983.

Uma segunda mulher o acusou de agressão sexual em 2017, quando ela tinha 16 anos em 1973, e uma terceira apresentou uma queixa em 2017 por estupro, por fatos que datam de 1972, quando ela tinha 15 anos.

Acusações "infundadas", segundo seu advogado.

A presença de "J'Accuse" na disputa pelo Leão de Ouro provocou fortes críticas nas últimas semanas por parte de feministas, incluindo a fundadora do grupo Women and Hollywood, Melissa Silverstein, para quem o Festival "é completamente surdo aos problemas relacionados ao #MeToo".

A própria presidente do júri, Lucrecia Martel, afirmou na quarta-feira estar "muito envergonhada" com a seleção do filme, e indicou que "não compareceria" à exibição oficial.

Ela então amenizou suas palavras, indicando que "não se opunha" à presença dele na competição e não tinha "preconceitos" sobre o trabalho.

O diretor atrai há vários anos a ira das feministas, que não aceitam que seus filmes continuem sendo exibidos em festivais e que ele continue sendo homenageado.

Na França, feministas protestaram em 2017 contra uma retrospectiva de seus filmes na Cinémathèque, e ele desistiu de presidir a cerimônia de César no mesmo ano.

Nos Estados Unidos, o diretor processou a Academia do Oscar, que decidiu excluí-lo.

Roman Polanski se declarou culpado em 1977 por sexo ilegal com Samantha Geimer, então com 13 anos de idade.

Ele fugiu dos Estados Unidos após a mudança na posição do juiz, que provavelmente resultaria em uma sentença mais pesada do que o previsto. Os promotores americanos ainda estão tentando trazê-lo ao país para fazê-lo cumprir sua sentença.


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