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Estado de Minas

Os jovens na linha de frente em Hong Kong, sem líderes nem ilusões


postado em 17/06/2019 07:06

Os jovens de Hong Kong que enfrentaram a polícia de choque na última semana explicam por que escolheram a estratégia do confronto depois de anos de manifestações pacíficas contra a erosão das liberdades na ex-colônia britânica.

As grandes manifestações conseguiram, no entanto, a suspensão temporária por parte do Executivo de Hong Kong de um polêmico projeto de lei que autoriza as extradições para a China, assim como um pedido de desculpas da chefe de Governo local, Carrie Lam. Além disso, o líder estudantil Joshua Wong, símbolo dos protestos pró-democracia de 2014, foi libertado nesta segunda-feira.

Em uma série de entrevistas com a AFP, esses jovens, em sua maioria estudantes, relatam ter perdido a fé nas manifestações pacíficas e campanhas de desobediência civil.

Os líderes dos movimentos pró-democracia anteriores estão presos e, por isso, os jovens de hoje não têm orientação e devem se organizar em pequenas células.

Este centro financeiro internacional, devolvido à China em 1997, foi palco de cenas de violência sem precedentes na última quarta-feira, quando jovens enfrentaram a polícia para protestar contra o polêmico projeto de lei.

Na linha de frente, Sharon, uma estudante de 18 anos, afirma ter percebido três dias antes que as manifestações pacíficas são inúteis.

Na quarta-feira, um número recorde de manifestantes - um milhão, de um total de sete milhões de habitantes, segundo os organizadores - foi às ruas para exigir a retirada do projeto de lei.

- Preparados para o confronto -

"Percebi que, mesmo que um milhão de pessoas protestem, isso não tem impacto", diz Sharon. "As pessoas entenderam que as manifestações pacíficas não funcionam".

Andrew, de 22 anos, e um grupo de sete amigos prepararam-se cuidadosamente antes de ir para a manifestação. Eles compraram material para se proteger, óculos e papel transparente para embalar alimentos e evitar as queimaduras provocadas pelo gás lacrimogêneo, além de ataduras para eventuais feridas.

"Ninguém nos disse para usar a força ou ir para a linha de frente", assegura.

A decisão de enfrentar as forças de ordem para tentar entrar no Conselho Legislativo (LegCo, Parlamento local) foi espontânea, sem ordens superiores.

É evidente o contraste com o imenso movimento pró-democracia de 2014, quando os manifestantes ocuparam bairros inteiros por mais de dois meses para exigir que a eleição do chefe de governo fosse feita por sufrágio universal.

Apesar de confrontos esporádicos com a polícia, o movimento naquela época foi em grande parte pacífico, liderado por líderes claramente identificados.

Mas a "Revolta dos Guarda-Chuvas" não conseguiu obter qualquer tipo de concessão, e várias figuras do movimento foram detidas.

"O que fizemos foi insuficiente para o governo perceber a raiva e o descontentamento do povo. E é por isso que agora decidimos mudar", acrescenta Andrew.

- "Radicais e violentos" -

A polícia descreveu a manifestação da quarta-feira de tumulto, com "pessoas organizadas, preparadas, radicais e violentas", segundo um comissário de polícia.

O chefe de polícia de Hong Kong defendeu seus agentes e afirmou que eles foram atacados com projéteis, como paralelepípedos.

Mas tanto as forças de segurança quanto a própria chefe do Executivo, Carrie Lam, foram acusadas de uso excessivo da força por grupos de direitos humanos, advogados e juristas.

Vários pais de família manifestaram com cartazes perguntando: "Não atirem nos nossos filhos".

Andrew, que afirma ter sido espancado com cassetetes, garante que as pessoas começaram a justificar as táticas mais radicais.

"Havia pessoas de terno que vieram nos perguntar se precisávamos de alguma coisa", disse ele.

Leung, uma estudante que participou de todas as manifestações dos últimos anos, diz que sua geração "não tem nada a perder".

Para Andrew, as possíveis repercussões do projeto de extradição são mais fortes do que o medo de ser preso. "Mesmo se eu escolher o conforto e me tornar um banqueiro, se esta lei for adotada, me sentirei ameaçado".

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