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Estado de Minas

Vazamentos põem 'Lava Jato' na berlinda


postado em 10/06/2019 19:49

As revelações sobre trocas de mensagens entre os procuradores da Operação Lava Jato e o então juiz Sergio Moro sobre o caso que levou à prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva puseram na berlinda a maior investigação anticorrupção do país.

O site The Intercept Brasil publicou neste domingo mensagens hackeadas trocadas entre os procuradores e destes com Moro, nomeado em janeiro ministro da Justiça e Segurança Pública do presidente Jair Bolsonaro.

Entre as mensagens, destaca-se uma série de setembro passado, quando os procuradores atuaram para impedir que Lula, preso desde abril de 2018, fosse entrevistado por medo de que pudesse beneficiar seu afilhado político, Fernando Haddad, candidato do PT às eleições presidenciais, vencidas por Bolsonaro.

Outras mensagens mostram que o principal procurador da Lava Jato, Deltan Dallagnol, estava preocupado com a solidez das acusações apresentadas contra Lula para condená-lo como beneficiário de um apartamento tríplex no Guarujá, no litoral paulista, entregue pela empreiteira OAS em troca de contratos com a Petrobras.

Lula, que cumpre pena de 8 anos e 10 anos de prisão, sempre considerou sua condenação fruto de uma conspiração político-judicial para impedir que a esquerda voltasse ao poder.

Seus advogados consideraram que os vazamentos demonstram isto e já pediram o pleno restabelecimento da liberdade do líder histórico da esquerda, de 73 anos.

O caso pode servir como precedente para outras centenas de políticos e empresários condenados pela Lava Jato.

- Tempestade num copo d'água? -

"É muito natural, é normal, que procuradores e advogados conversem com o juiz, mesmo sem a presença da outra parte. O que se deve verificar é se nessas conversas existiu conluio ou quebra de imparcialidade", declarou Dallagnol.

"Tentar imaginar que a Lava Jato a esta altura é uma operação partidária é uma teoria da conspiração que não tem base nenhuma", disse o procurador.

Moro, por sua vez, considerou que nas mensagens que o citam "não se vislumbra nenhuma anormalidade ou direcionamento da atuação enquanto magistrado, apesar de terem sido retiradas de contexto e do sensacionalismo das matérias".

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) expressou-se no mesmo sentido.

"O vazamento de mensagens entre juiz e promotor da Lava-Jato mais parece tempestade em copo d'água. A menos que haja novos vazamentos mais comprometedores", disse Cardoso ao blog do jornalista Tales Faria.

O The Intercept Brasil assegura ter um arquivo colossal, do qual só divulgou "uma pequena parte", declarou à AFP o diretor-executivo da publicação, Leandro Demori.

O site tem credenciais sobre seu poder de fogo. Seu cofundador, Gleen Greenwald, foi quem revelou em 2013 os vazamentos de Edward Snowden sobre os programas de vigilância maciça implementados pela americana NSA.

Resta ver como o Supremo vai se movimentar. Um de seus onze magistrados, Marco Aurélio Mello, admitiu que os vazamentos põem em dúvida, principalmente aos olhos dos leigos, a equidistância dos órgãos que julgam.

- Opiniões divididas -

O vazamento incendiou as redes sociais, com duas hashtags: "#EuApoioLavaJato" e "#EuApoioTheInterceptBR".

O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), um dos três filhos do presidente dedicados à política, considerou oportuno lembrar ao seu eleitoral que, para além das questões jurídicas, a onda ultraconservadora que levou seu pai ao poder foi alimentada em grande parte pela aversão a Lula.

"Nada muda o fato de que Lula roubou e chefiou a maior organização criminosa do mundo, responsável dentre outros escândalos pelo do petrolão - superior até ao PIB de diversos países. O Brasil é rico, só não é potência por conta de ladrões como Lula", escreveu.

O vendedor de flores Roberto Mauro, de 39 anos, que trabalha no centro do Rio, diz que precisa ter mais explicações. "O povo está interessado em saber o que foi que realmente aconteceu nos bastidores da operação Lava Jato", declarou à AFP.

A advogada Patricia Riffel, de 54 anos, se disse decepcionada com Moro. "Eu tinha uma visão diferente do Sergio Moro como juiz, mas quando ele foi para o ministério da justiça já mudou um pouco a minha visão sobre ele, e agora fiquei totalmente chocada nesse sentido", afirmou.

Para Rodrigo Oliveira, auxiliar administrativo de 21 anos, não há "nada anormal" nos contatos entre Moro e Dallagnol. "Foi uma conversa particular, de cunho privado, então eu não vi nenhum tipo de maldade ou algo que possa marginalizar a imagem do Sergio Moro", comentou.

- Atenção redobrada dos mercados -

As revelações vêm à tona em um momento em que Bolsonaro tenta deixar para trás as disputas em seu próprio campo para avançar com as reforças econômicas que os mercados consideram indispensáveis para dinamizar o país, ameaçado pela recessão.

André Perfeito, da consultoria Necton, acredita que as revelações terão implicações limitadas, mas considera impossível ignorar o contexto, com uma greve geral convocada pelos sindicatos para a próxima sexta-feira. Por isso, diz, "sugerimos atenção redobrada".

A bolsa de São Paulo operava no meio da tarde desta segunda-feira em queda de 0,50%.

"É muito natural, é normal, que procuradores e advogados conversem com o juiz, mesmo sem a presença da outra parte. O que se deve verificar é se nessas conversas existiu conluio ou quebra de imparcialidade".

"tentar imaginar que a lava jato a essas alturas é uma operação partidária é uma teoria da conspiração que não tem base nenhuma"

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