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Estado de Minas

Governo do Sudão tenta minimizar repressão


postado em 06/06/2019 10:43

Os sudaneses revelaram nesta quinta-feira o clima de medo em Cartum diante da repressão sangrenta nos últimos dias contra o movimento de protesto, enquanto o governo tentava minimizar sua magnitude.

Em um balanço oficial, o ministério da Saúde afirmou à AFP que o número de mortos desde a segunda-feira "chegava a 61". Mais cedo, o órgão havia negado "que o número de mortes nos recentes eventos tenha alcançado 100", afirmando "que não supera 46".

De acordo com o comitê de médicos próximo aos manifestantes, 108 pessoas morreram e mais de 500 ficaram feridas desde segunda-feira, dia em que as autoridades dispersaram com violência um acampamento da oposição em Cartum.

Esta operação, "um massacre" cometido por "milícias" do Conselho militar segundo este grupo de profissionais, foi denunciado pela ONU, pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha, entre outros. E, segundo a mesma fonte, o balanço desta repressão pode ainda aumentar.

Nesta quinta-feira, a União Africana (UA) reagiu aos últimos acontecimentos anunciando a suspensão, com efeito imediato, do Sudão, "até o estabelecimento efetivo de uma autoridades civil de transição".

No terreno, as principais artérias da capital estavam abertas, com uma presença importante das Forças de Apoio Rápido (RSF), paramilitares que trabalham para os serviços de segurança.

As RSF são acusadas de serem os principais autores da repressão sangrenta.

"Estamos vivendo em estado de terror por causa dos tiros intermitentes", declarou à AFP um morador do sul de Cartum.

Apesar de uma situação aparentemente mais calma, ele admitiu que "tem medo por (seus) filhos".

Como nos dias anteriores, vários voos com destino a Cartum foram cancelados na quarta-feira à noite.

O Sudão é cenário desde dezembro de uma inédita revolta popular, que provocou a destituição pelo exército do ex-presidente Omar al-Bashir em 11 de abril.

Mas a mobilização prosseguiu, com os manifestantes acampando em frente ao quartel-general do exército para exigir a entrega do poder aos civis.

Na segunda-feira, a dispersão brutal deste acampamento emblemático provocou uma onda de consternação entre os manifestantes.

E, apesar da repressão e do medo, os líderes do movimento continuam determinados em seguir adiante.

"A revolução continua e o nosso povo sairá vitorioso, apesar do terrorismo e da violência das milícias", declarou a Associação de Profissionais Sudaneses (SPA), importante ator do movimento.

A associação convocou uma "greve por tempo indefinido e a desobediência civil", mas advertiu contra os apelos à violência.

"Nosso compromisso com o pacifismo é mais forte e mais eficaz nesta situação particular", assegurou a SPA.

A arma "pacífica" privilegiada pela contestação é o bloqueio das estradas. Os manifestantes instalaram barricadas por toda a capital feitas com tijolos, pedras, pneus, etc.

Para os manifestantes, a identidade dos autores da repressão é clara: as "milícias" do Conselho militar, em particular as RSF.

Nas ruas de Cartum, os habitantes exibem olhares de medo na passagens desses homens, muitas vezes jovens, em uniforme bege impecável e fortemente armados.

Oriundas das ex-milícias árabes Janjaweed em Darfur, palco de uma longa guerra civil, as RSF foram implantadas em massa no país, especialmente nas ruas de Cartum.

O chefe das RSF, vice-presidente do Conselho militar e ex-líder da Janjawid, o temido Mohamad Hamdan Daglo, apelidado de "Hemeidti", assegurou que estava ao lado dos "revolucionários". Mas ele também prometeu não "permitir o caos", particularmente em referência às barricadas.

Em comunicado, o Conselho militar defendeu as RSF contra "a campanha organizada nas redes sociais para espalhar mentiras e fabricar acusações".

O Facebook e o Twitter foram e continuam sendo ferramentas essenciais na contestação. Nos últimos dias, os internautas compartilharam muitos vídeos mostrando homens das RSF espancando civis desarmados. A internet móvel foi cortada desde segunda-feira.


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