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Estado de Minas

Bong Joon-ho, de lista negra à Palma de Ouro em Cannes


postado em 25/05/2019 16:49

Premiado neste sábado com a Palma de Ouro em Cannes, o cineasta sul-coreano Bong Joon-ho retorna, com "Parasite", a um cinema mais social, depois de filmes de grande orçamento.

O cineasta, 49, de rosto quadrado, cabeleira negra e óculos de armação fina, começou a despontar há pouco mais de 15 anos, com o thriller "Memórias de Um Assassino" (2003).

"Expresso do Amanhã", filme de ficção científica com Tilda Swinton e Chris Evans, abriu-lhe as portas de Hollywood 10 anos depois, em 2013. Em 2017, disputou a Palma de Ouro em Cannes com "Okja".

A consagração chegou com a tragicomédia intimista "Parasite", com a qual conquistou o principal prêmio do festival francês e em que explora as diferenças entre as classes sociais.

Apresentado na terça-feira à noite - e calorosamente aplaudido - "Parasite" conta a história de uma família de desempregados - a de "Ki-taek" (interpretado por Song Kang-ho) - que vive em um porão, em meio a baratas.

A vida de Ki-taek, da mulher e dos dois filhos muda quando um dos filhos, "Ki-Woo", consegue um emprego como professor particular de inglês de uma jovem de família rica, os "Park", que vivem numa casa suntuosa com jardim, grandes janelas e decoração de bom gosto.

A família de Ki-taek rapidamente se aproveita da situação: por meio de subterfúgios, Ki-Woo faz sua irmã ser contratada para dar aulas de desenho ao filho mais novo, depois seus pais, como motorista e governanta.

Mas, se tudo parece correr bem para a família de golpistas, a chegada dos "parasitas" à família Park marcará o início de uma engrenagem incontrolável.

Com a história, Bong Joon-ho deixa para trás o universo fantástico e os grandes orçamentos internacionais de seus dois últimos filmes, "Expresso do Amanhã" e "Okja", que gerou polêmica em Cannes sobre a possibilidade ou não de filmes da Netflix competirem na mostra oficial.

O diretor opta por um enfoque muito mais íntimista, com uma alta dose de suspense. Por sinal, ele escreveu uma carta implorando aos críticos que não revelassem uma parte importante da história de seu filme.

Conhecido por suas sátiras da sociedade sul-coreana, de "Memórias de Um Assassino" a "O Hospedeiro", Bong Joon-ho aumenta sua propensão a retratar a violência das relações sociais em um mundo onde as desigualdades se amplificam, apoiando-se novamente no filme de gênero para melhor transmitir sua mensagem.

Em "Okja", onde contava a odisseia de um jovem sul-coreano para levar à sua montanha o melhor amigo, um grande porco geneticamente modificado, o diretor enviava várias mensagens em favor do meio ambiente e contra o capitalismo, convicções que já foram sentidas em filmes anteriores de Bong, que estudou sociologia na renomada universidade Yonsei de Seul. "Memórias de Um Assassino" desenhava a atmosfera repressiva dos anos 1980 sob o comando do Exército, e foi percebida como uma sátira à sociedade sul-coreana.

- Lista negra -

Em seu sucesso de 2006, "O Hospedeiro", ele descrevia a incompetência de um governo frente a um desastre. Oito anos depois, muitos sul-coreanos estabeleceram paralelos entre este thriller fantástico e a catástrofe com o ferry Sewol, em que 304 pessoas, a maioria estudantes do ensino médio, morreram em 2014.

O governo foi acusado de incompetência na hora de socorrer as vítimas, e Bong, que se declarou profundamente traumatizado com a tragédia, foi uma das personalidades que exigiram uma investigação.

Seu trabalho lhe custou ser incluído em uma lista negra das autoridades sul-coreanas na época da ex-presidente Park Geun-hye, filha de um ditador e destituída em março de 2018. As autoridades miraram em nomes de destaque da literatura, do cinema, da dança e do teatro que "manifestaram pensamentos esquerdistas", ou seja, que eram críticos do governo.

"Foi por causa desses anos de pesadelo que muitos artistas sul-coreanos ficaram profundamente traumatizados", explicou à AFP Bong, que se tornou uma voz de destaque no cenário artístico em seu país.

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