Publicidade

Estado de Minas

O desafio de ensinar a história do Apartheid na África do Sul atual


postado em 25/04/2019 15:55

As imagens em preto e branco se sucedem, com uma música gospel ao fundo. Manifestantes enfurecidos, policiais agredindo a multidão, corpos nas estradas, dezenas de caixões alinhados... Os alunos de um colégio sul-africano descobrem os horrores do Apartheid.

As imagens são de 21 de março de 1960, em Sharpeville. A população negra então começava a se rebelar contra o regime branco do Apartheid, que as estudantes do colégio privado para meninas de Herschel, na Cidade do Cabo, não conheceram.

Sua professora de História Leah Nasson convida a turma - cerca de 20 meninas, todas brancas, à exceção de uma - a mergulhar no polêmico passado de seu país.

Por experiência, ela sabe que esta lição será delicada. Um quarto de século depois do advento da democracia na África do Sul ensinar a história do Apartheid continua sendo um desafio pedagógico e emocional.

Leah Nasson aposta "na emoção e na empatia", porque - alega - "facilita a compreensão".

Durante dez minutos, as imagens do sangrento massacre na comunidade de Sharpeville - onde 69 negros foram abatidos pela polícia - comovem as adolescentes.

"Me horrorizou um pouco que uma coisa assim possa acontecer", reagiu Louisa Siebel, de 16 anos.

"Não fiz nada diretamente, mas algo se rompeu no nosso país, no nosso povo, e me sindo culpada", completou.

- Luz sobre o presente -

"Antes da minha geração, algumas pessoas da minha cor e raça sofreram isso. A cada vez, me parte o coração", declara sua colega de turma Carly Carter, uma mestiça de 15 anos.

"Mas sei que é importante se preocupar hoje com o que aconteceu ontem", acrescenta.

Depois da projeção de slides, a professora mostra fotos recentes da comunidade pobre de Langa, a mais antiga da Cidade do Cabo.

Barracos, lixo, ruas sem asfalto... Não dá para esquecer que a África do Sul continua sendo, apesar da democracia, um dos países mais desiguais do planeta.

"Conhecer o passado deve iluminar o presente", afirma Leah Nasson.

"Ajudá-las a compreender por que estamos onde estamos, a que se devem todas essas fraturas, e a se opor aos comportamentos racistas", completou.

O ensino de História não é obrigatório nas escolas de Ensino Médio sul-africanos. O governo quer impô-lo e revisar o conteúdo que, segundo a ministra da Educação, Angie Motshekga, "perpetua uma visão colonial, ou ocidental". Sua reforma provoca uma grande polêmica política.

Desde 2003, a ONG Shikaya ajuda os professores a abordar o tema.

Com este tipo de aula, "a cada ano, milhares de professores negros revivem um trauma, por isso querem tirar isso de cima deles o quanto antes", afirma seu fundador, Dylan Wray, acrescentando que "muitos professores brancos (...) preferem se concentrar no futuro".

- Preconceitos -

A formação e as precauções não impedem a controvérsia. Leah Nasson viveu isso em outro colégio.

"Havia muito racismo, então dei uma aula sobre os preconceitos", conta.

"Me acusaram de fazer política (...). As coisas mudam, mas continua havendo muita resistência", lamentou.

Longe dos bairros nobres da Cidade do Cabo, também não é fácil para seu colega Milton Changwa. Ele ensina História em um bairro de maioria negra de Worcester, a cerca de 100 quilômetros dali, em uma instituição sem grama cuidada e aparada e sem computadores modernos.

Este professor da Escola Vusisizwe pediu a seus 29 alunos que descrevessem a diferença entre negros e brancos. Suas respostas são impactantes. Para os estudantes, o negro é "inferior", "violento", "pobre" e se distingue por sua "cultura" e seu "físico". O branco é "limpo", "rico", "inteligente", "civilizado", "respeitoso" e "de cabelo loiro".

- Herança -

O professor não parece surpreso: "É nossa herança".

Durante uma hora, Milton Changwa vai detalhar o dia a dia do Apartheid. O que ele conheceu. A segregação, o medo da polícia...

Nas aulas, são muitas as reações. "Ódio aos brancos que nos trataram como coitados", afirma um aluno. "Vingança", diz outro.

Depois, mais tranquilos, comparam sua situação com a de seus pais.

"Continua havendo racismo, mas menos pronunciado", diz Xabiso Dyantyi, de 17.

Passados 25 anos da eleição de um presidente negro, possível graças à abolição das leis do Apartheid, a África do Sul está longe de ser a "nação arco-íris" sonhada por Nelson Mandela.


Publicidade