Julian Assange, fundador do WikiLeaks, foi detido nesta quinta-feira (11) pela polícia britânica depois de ter sido despojado do asilo e da nacionalidade do Equador, e agora enfrenta um pedido de extradição para ser julgado nos Estados Unidos.
Magro e envelhecido, com uma longa barba branca e cabelo preso em um rabo de cavalo, o australiano, de 47 anos, foi retirado esta manhã da embaixada do Equador em Londres por seis agentes a paisana que o colocaram em um veículo da polícia.
A polícia de Londres "foi convidada à embaixada pelo embaixador" equatoriano, Jaime Marchán, afirmou a Scotland Yard.
A plataforma WikiLeaks, que ficou famosa em 2010 ao vazar centenas de milhares de documentos secretos do Exército e da diplomacia dos Estados Unidos, alertava há dias que a expulsão de seu fundador era iminente.
Após a sua detenção, o Departamento de Justiça americano anunciou que pediu a sua extradição para julgá-lo por seus delitos.
- Ciberpirataria -
De acordo com documentos judiciais, revelados apenas nesta quinta, o hacker é acusado de ajudar a ex-analista de inteligência americana Chelsea Manning, antes chamado Bradley Manning, a obter uma senha para acessar milhares de documentos de defesa confidenciais para divulgá-los.
Pela acusação de conspiração através de ciberpirataria, Assange pode pegar cinco anos de prisão, segundo a Justiça.
Assange e seus defensores temem que seja condenado à pena de morte nos Estados Unidos por traição ou divulgação de segredos de Estado, apesar de Washington assegurar que ele enfrenta uma pena máxima de cinco anos de prisão.
Ai chegar a um tribunal de Londres, Assange fez um gesto para a imprensa com o polegar para cima, carregando o livro "A História do Estado de Segurança Nacional" do norte-americano Gore Vidal, antes do início da audiência em que foi declarado culpado de ter violado a sua liberdade condicional britânica em 2012.
O juiz Michael Snow descreveu-o como "narcisista incapaz de ver além de seu próprio interesse" e considerou-o culpado de violar as condições de sua liberdade provisória. Sua sentença será anunciada em uma data posterior não especificada.
Assange permanecerá detido em Londres até a próxima audiência, prevista para 2 de maio.
- "Conspiração para fazer jornalismo" -
Sua equipe de defesa declarou que "lutará" contra a extradição para os Estados Unidos, segundo sua advogada britânica, Jennifer Robison, que expressou preocupação por seu frágul estado de saúde.
O advogado americano de Assange condenou, por sua vez, os Estados Unidos por pedirem a extradição de um "jornalista estrangeiro" para enfrentar acusações por "publicar informações verdadeiras".
Os tribunais britânicos "vão resolver o que parece ser um esforço prévio dos Estados Unidos para obter a extradição de um jornalista estrangeiro para enfrentar acusações de publicação de informações verdadeias", declarou Barry Pollack, em comunicado divulgado no Twitter.
Por sua vez, o chefe de redação do WikiLeaks, Kristinn Hrafnsson, assegurou que Assange só é culpado de "conspiração para fazer jornalismo".
- Hóspede incômodo para o Equador-
As autoridades britânicas solicitavam a sua detenção há anos por violação da sua liberdade condicional quando, em 19 de junho de 2012, refugiou-se na embaixada equatoriana para evitar sua extradição à Suécia onde era acusado de crimes sexuais que acabaram sendo arquivados.
Mas quando chegou na delegacia, o pior temor de Assange se cncretizou: foi detido uma segunda vez "em nome das autoridades americanas", que não haviam revelado até agora as acusações contra ele.
O especialista em computação sempre sustentou que as acusações na Suécia faziam parte de um plano dos Estados Unidos para submetê-lo à sua jurisdição e fazê-lo pagar com a pena de morte o vazamento de milhares de segredos oficiais através de seu portal WikiLeaks.
Após dois meses de confinamento na embaixada, o então presidente equatoriano Rafael Correa (2007-2017) concedeu asilo diplomático em agosto do mesmo ano.
"Espero que eu esteja enganado, mas tenho quase certeza que vão extraditá-lo para os Estados Unidos onde não terá a mínima possibilidade de um julgamento justo", reagiu Correa nesta quinta à AFP na Bélgica, onde vive desde 2017.
O atual presidente equatoriano Lenín Moreno, ex-aliado de Correa que se voltou contra ele, revisando quase todas as políticas do seu antecessor.
"A conduta desrespeitosa e agressiva de Julian Assange, as declarações descorteses e ameaçadoras de sua organização aliada contra o Equador, levaram a situação a um ponto em que o asilo é insustentável e inviável", disse Moreno em um vídeo transmitido pelas redes sociais.
A esse respeito, afirmou que seu governo "soberanamente" deu por encerrada a proteção oferecida em sua embaixada, onde o australiano permaneceu por quase sete anos.
O presidente também assegurou que pediu "à Grã Bretanha a garantia que o senhor Assange não será entregue em extradição a nenhum país onde possa ser submetido a torturas ou condenado à morte".
"O Equador cumpriu suas obrigações sob a lei internacional. Assange violou repetidamente disposições expressas das convenções diplomáticas de asilo", informou o presidente equatoriano.
De acordo com Moreno, o fundador do WikiLeaks infringiu "particularmente a regra de não intervir nos assuntos internos de outros Estados".
Além disso, "ele instalou equipamentos eletrônicos de distorção não permitidos, bloqueou as câmeras de segurança da missão do Equador em Londres, atacou e maltratou guardas da sede diplomática, acessou sem permissão os arquivos de segurança da nossa embaixada", acrescentou Moreno.
Após a prisão de Assange, a primeira-ministra britânica, Theresa May, elogiou a ação e agradeceu ao Equador por sua cooperação.
"No Reino Unido, ninguém está acima da lei", disse ela aos deputados, agradecendo também à polícia britânica por demonstrar "grande profissionalismo".
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