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Estado de Minas

Migrantes, protagonistas inesperados das legislativas americanas


postado em 06/11/2018 19:49

Os milhares de centro-americanos que entraram no México integrando caravanas de migrantes se tornaram protagonistas involuntários das eleições legislativas americanas de meio de mandato nesta terça-feira (6), decisivas para o futuro político do presidente Donald Trump, mas que muitos deles simplesmente ignoram.

"Não sei" ou "Não sabemos de nada" são as respostas frequentes entre os migrantes abrigados temporariamente na Cidade do México quando perguntados sobre as legislativas nos Estados Unidos.

"Tem coisas que nem sabemos e, além disso, não nos dão informação", disse à AFP Jairo Velázquez, hondurenho de 24 anos, reconhecendo seu pouco conhecimento do tema.

As eleições americanas, nas quais se espera elevada participação, são chave para Trump, que pode perder a maioria parlamentar em uma votação que é considerada um referendo sobre sua polêmica administração, embora ele não apareça nas cédulas de votação.

Às vésperas do pleito, Trump enviou milhares de militares à fronteira sul para impedir o ingresso de centro-americanos no país e disse que entre eles havia membros de gangues, traficantes de drogas e até terroristas infiltrados, sem apresentar evidências de suas acusações.

"Donald Trump não é o dono da Terra, o único dono é Deus", afirma Uziel Cantillano, que chegou à capital mexicana quase quatro semanas depois da partida da caravana, que deixou Honduras em 13 de outubro.

"Trump tem que abrir a fronteira porque esse povo vai para cima [para o norte], quer um emprego", afirmou o hondurenho de 31 anos no abrigo que na terça-feira já contava com 4.500 migrantes, segundo as autoridades locais.

Entre 8.000 e 9.000 migrantes transitam por diversos pontos do sul e do centro do México, ainda longe de seu destino final, os Estados Unidos, segundo a Comissão Nacional de Direitos Humanos.

- No centro do debate -

Para especialistas, é um cálculo de Trump que as caravanas estejam no centro do polarizado debate político americano.

"É um tema que ajuda a atiçar sua ala mais radical", afirma Adolfo Laborde, acadêmico da Universidade Anáhuac na Cidade do México.

Ele acrescenta que a presença de membros de gangues é uma probabilidade que pode trazer "riscos de um início de violência ou de contaminação de causas nobres", como a caravana.

Alguns migrantes recusam-se a ser qualificados como criminosos. Outros dizem que de fato há delinquentes no grupo.

"Não somos criminosos, somos trabalhadores", afirma Eber Josué, hondurenho de 25 anos.

"Nas caravanas assim tem muita gente que se perde, muita gente sai como delinquente", afirma Carlos Rivera, conterrâneo de Josué, também com 25 anos.

Na segunda, a CNDH disse não ter registro de pessoas com antecedentes criminais.

Alheios ao futuro político dos Estados Unidos, muitos estão mais preocupados em encontrar algo mais substancioso para comer do que os ovos com feijão que receberam no café da manhã ou em encontrar um computador com acesso à internet para se comunicar com seus familiares.

Outros, no entanto, confiam em que o resultado das eleições seja adverso para o Partido Republicano de Trump e sua rígida posição contrária à migração.

Alguns confiam, inclusive, em que o presidente acabe cedendo e permita-lhes a passagem, diante de um possível avanço do Partido Democrata no Congresso.

Se for eleito um "novo Congresso, eu acho que teríamos uma nova oportunidade para entrar" nos Estados Unidos, diz Rivera.

- Confiança no povo americano -

Vestindo uma simples camiseta e boné decorado com as estrelas e as listras da bandeira americana, Rivera fugiu da violência e da pobreza de seu país, assim como a maioria que compõe a caravana.

"Não temos como viver, não há trabalho", diz, por sua vez, Jenny Carolina López, hondurenha de 30 anos.

Embora ainda restem pelo menos 1.000 km de estrada até a fronteira norte, vários garantem não ter medo de Trump e confiam em que os americanos os apoiarão.

"Não vamos ter medo (de Trump), vamos ensinar-lhe que todos os migrantes vão desafiá-lo", afirma, sorridente, Claudia García, de 18 anos.

"Muita gente anda fazendo protestos nos Estados Unidos a nosso favor porque sabe que nossa luta é muito difícil e Donald Trump não entende isso", continua a jovem hondurenha.

Outras duas caravanas ainda avançam pelo sul do país, decididas a seguir o trajeto das anteriores.

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