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Estado de Minas

Turquia acusa os 'mais altos níveis' de governo saudita por assassinato de jornalista


postado em 02/11/2018 19:53

A Turquia acusou nesta sexta-feira (2) "os mais altos níveis do governo saudita", mas não o rei Salman, de ter encomendado o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, morto há um mês no consulado da Arábia Saudita em Istambul e cujo corpo desmembrado teria sido dissolvido em ácido.

"Sabemos que os executores do crime estão entre os 18 suspeitos detidos na Arábia Saudita. Também sabemos que estes indivíduos vieram (à Turquia) para cumprir uma ordem: matem Khashoggi e saiam", escreveu o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, em um artigo publicado no jornal americano Washington Post.

"Finalmente, sabemos que a ordem para matar Khashoggi veio dos mais altos níveis do governo saudita", acrescentou.

Mas o líder turco isentou o rei Salman de qualquer responsabilidade sobre o crime.

"Não acredito nem por um segundo que o rei Salman, guardião das santas mesquitas, tenha ordenado o golpe contra Khashoggi", continuou Erdogan.

O assassinato do jornalista saudita, crítico do regime de Riad e colaborador do Washington Post, manchou a imagem do reino sunita, em particular a do príncipe herdeiro, Mohamed bin Salman, que exerce o poder de fato.

Jamal Khashoggi foi assassinado no dia 2 de outubro dentro do consulado em Istambul, onde foi tratar dos papéis para seu casamento com uma turca.

Um dirigente turco assegurou nesta sexta que o corpo de Khashoggi foi desmembrado e dissolvido em ácido, enquanto a noiva do jornalista assassinado pedia à comunidade internacional o julgamento dos culpados.

"Vimos agora que não se conformaram em desmembrá-lo, eles se livraram do corpo dissolvendo-o", declarou Yasin Aktay, conselheiro do presidente turco, ao jornal Hürriyet.

"Os restos de Khashoggi devem ser encontrados o mais rápido possível e devolvidos a sua família para que possam enterrá-lo como merece", disse o porta-voz do Departamento de Estado americano, Robert Palladino, em entrevista coletiva na quinta-feira em Washington.

- 'Medidas reais' -

A Procuradoria de Istambul, por sua vez, afirmou que "a vítima foi desmembrada" e que "se desfizeram do corpo", em um comunicado publicado na quarta-feira.

Após declararem, em princípio, que Khashoggi deixou o consulado pouco depois de ter entrado e, posteriormente, que morreu durante uma briga, Riad acabou tendo que reconhecer que o crime se tratou de uma "operação não autorizada".

"Peço à comunidade internacional que adote medidas reais, sérias e concretas para revelar a verdade e levar seus responsáveis à Justiça", escreveu Hatice Cengiz, noiva turca de Khashoggi, em um artigo publicado em vários jornais estrangeiros.

Depois, esse pedido foi dirigido expressamente ao presidente americano, Donald Trump, durante uma cerimônia em homenagem ao seu noivo em Washington.

"Faz exatamente um mês que perdemos Jamal", disse em uma mensagem gravada. "Nada disso pode aliviar a dor que sofri após essa atrocidade. E a principal razão disso é que seu corpo continua sem ser encontrado".

- Papel controverso dos Estados Unidos -

O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, considerou na quinta-feira que precisarão de "várias semanas" antes que seu país disponha de provas suficientes para impor sanções às pessoas envolvidas no assassinato.

Nesta sexta, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, cujo país compartilha com a Arábia Saudita sua hostilidade em relação ao Irã xiita, ressaltou a importância da "estabilidade" do reino saudita e chamou de "horrível" o assassinato de Khashoggi.

"É muito importante para a estabilidade do mundo e para a região que a Arábia Saudita permaneça estável", disse Netanyahu durante uma visita à cidade búlgara de Varna, falando pela primeira vez sobre o caso.

Já a Anistia Internacional pediu que os Estados-membros da ONU "acabem com o silêncio ensurdecedor em relação à Arábia Saudita" e exortou que vigiem a "crueldade" do reino.

"A morte de Jamal Khashoggi mostrou até onde podem ir as autoridades sauditas em sua repressão de qualquer oposição pacífica, uma repressão que só aumentou desde que Mohamed bin Salman se tornou príncipe herdeiro", acrescentou em um comunicado a diretora de campanhas da ONG no Oriente Médio, Samah Hadid.

Em Londres, uma rua próxima à embaixada saudita foi rebatizada Khashoggi por ativistas da AI às 13h14, hora em que o jornalista entrou no consulado de seu país na Turquia.

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