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Estado de Minas

Eleição para governador na Flórida, um microcosmo da polarização nos EUA


postado em 02/11/2018 09:25

Um carismático democrata negro contra um republicano branco anti-imigração: a corrida pelo governo da Flórida nas eleições de meio de mandato é um microcosmo da polarizada política americana e talvez um sinal do que pode acontecer em 2020.

Do lado democrata está Andrew Gillum, de 39 anos, prefeito da capital, Tallahassee. Se vencer, será o primeiro governador negro da Flórida. Seus fervorosos seguidores consideram seu discurso tão inspirador quanto o do progressista Bernie Sanders ou o do ex-presidente Barack Obama.

Seu adversário republicano, o ex-congressista Ron DeSantis, de 40 anos, tem o mesmo viés populista do presidente Donald Trump. Quer impor limites ao aborto, reduzir os impostos, endurecer a política migratória e defender a livre venda de armas.

Forasteiros em seus próprios partidos, ambos ocupam extremos opostos do espectro ideológico. Segundo especialistas consultados pela AFP, é como se Trump tivesse enfrentado Sanders - e não Hillary Clinton - nas eleições presidenciais de 2016.

Mas os dois enfrentam obstáculos. Uma investigação por corrupção que o FBI conduz em Tallahassee está ofuscando a campanha de Gillum, enquanto DeSantis é criticado por um comentário sobre seu adversário que muitos denunciam como racista.

As pesquisas mostram um empate entre os dois candidatos. E o resultado de 6 de novembro dará pistas sobre o que poderá ocorrer em nível nacional se os democratas elegerem um candidato mais inclinado à esquerda para as presidenciais de 2020.

A Flórida, com 21 milhões de habitantes, é um peso-pesado nas eleições presidenciais, com uma população diversa que encapsula as divisões da política americana atual.

"Temos a oportunidade de enviar uma mensagem a todo o país, que penso que vai reverberar nos 50 estados, em toda a nação, em todo o mundo", disse Gillum durante evento recente em Miami. "Nem tudo está perdido e ainda há esperança!".

Suas propostas - aumentar os impostos corporativos, controlar a venda de armas e investir em educação, saúde pública e meio ambiente - apelam aos jovens e aos progressistas.

"É incrivelmente inspirador", disse Donald Shockey, planejador urbano de 60 anos, que chora de emoção após o discurso. "Um ser humano maravilhoso", soluçava.

- Prognósticos cautelosos -

Os jovens, estimulados pelo movimento contrário às armas após o massacre de 17 pessoas em uma escola em Parkland, animam novos eleitores a votar em democratas com vídeos em que atores de Hollywood falam, em duplo sentido, de sua "primeira vez".

A geração X, a Y, os "Millenials" e a recém-chegada Z (de 18 a 21 anos) são 52% dos eleitores registrados na Califórnia, disse à AFP a analista política Susan MacManus, professora da Universidade do Sul da Flórida (USF).

"O que estamos presenciando aqui é uma mudança geracional completa", acrescentou.

Mas os especialistas advertem os democratas que seu otimismo poderia ser tão infundado como em 2016, quando votantes da Flórida elegeram Trump.

"Parece que subestimam as pessoas que vão votar nos republicanos e boa parte disso vem do fato de que a imprensa demoniza quem se identifica como conservador", disse MacManus.

Segundo Michael McDonald, especialista em eleições da Universidade da Flórida, para vencer Gillum é preciso que se consiga levar às urnas mais jovens e mais pessoas de cor.

Enquanto isso, DeSantis, que se beneficiou nas primárias graças ao apoio de Trump, começa a cortejar um eleitorado menos conservador ao mudar seu foco para a educação e o meio ambiente.

"O atrativo em Trump não vai muito além de sua base republicana", disse o especialista.

Mas os hispânicos são sempre uma carta na manga.

- O fator porto-riquenho -

Os cubanos foram chave para dar a vitória a Trump na Flórida e DeSantis sabe disso.

Além disso, em seu mais recente alerta televisivo, divulgado em espanhol, o candidato republicano alertou os eleitores sobre as "ideias socialistas" de Gillum.

"Nenhuma destas ideias funcionou nos países que conhecemos", disse a voz em off, sobre a imagem que evoca residências mal conservada de Havana. "A agenda de Gillum traria os mesmos resultados: Miséria".

O representante DeSantis "foi um campeão de seu posto no Congresso" para promover políticas anticastristas em Washington, disse à AFP o advogado Marcell Felipe, presidente da fundação Inspire America.

Como contrapeso ao voto conservador dos cubanos, espera-se que cerca de 50.000 porto-riquenhos que se instalaram na Flórida após o furacão Maria punam Trump pela demora em responder ao desastre que deixou quase 3.000 mortos.

Como Porto Rico é um território americano, os porto-riquenhos podem votar se emigrarem para o território continental dos Estados Unidos.

Assim, metade dos 13 milhões de eleitores é de origem cubana ou porto-riquenha (28% e 22%), segundo a ONG Hispanic Federation.

"Ambos os partidos estão buscando agressivamente este voto", disse McManus. "Mas penso que terá maior impacto na presidencial de 2020".

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