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Estado de Minas

Militares podem voltar ao poder no Brasil, agora pela via eleitoral


postado em 18/10/2018 09:47

Pela primeira vez em décadas, os militares podem voltar a ter as rédeas do poder no Brasil, mas agora pela via eleitoral, com um clamor popular pela volta da "ordem" em uma democracia corroída pela corrupção, a crise econômica e a insegurança.

O favorito no segundo turno, Jair Bolsonaro, é um ex-capitão do Exército; seu companheiro de chapa, Hamilton Mourao, um general da reserva. Os dois são defensores da ditadura militar que controlou o país de 1964 a 1985.

Vários oficiais de reserva tiveram um papel importante na campanha e ao menos quatro poderão integrar seu governo caso de derrotar do petista Fernando Haddad, como preveem as pesquisas.

Às portas do poder, Bolsonaro prometeu ser "escravo da Constituição" e governar "com autoridade, mas sem autoritarismo".

Uma moderação bem-vinda para alguém que, em 2016, declarou "o erro da ditadura foi torturar e não matar".

Segundo a Comissão Nacional da Verdade, durante os anos de chumbo no Brasil foram registrados 434 assassinatos e milhares de casos de tortura.

Um relatório tornado público pela CIA revelou que a eliminação de opositores era decidida no gabinete presidencial.

Mas nenhum militar foi julgado, graças à Lei de Anistia de 1979.

- Os militares são 'tendência' -

Os militares se tornaram uma "tendência" no Brasil.

"Eu vi jovens dizendo: 'As coisas na ditadura eram mais organizadas'", afirmou o cientista político Jairo Nicolau, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). "São jovens que nasceram no regime democrático, mas começam a ter uma visão esmaecida dos eventos, não conhecem a história do Brasil", acrescentou.

No Congresso eleito este mês, 31 deputados e 4 senadores são ou eram militares ou policiais. Em 2014, eles somavam 18.

As instituições mais confiáveis para os brasileiros são os bombeiros, igrejas, a Polícia Federal e as Forças Armadas. Os menos: o governo, o Congresso, os partidos e a presidência, segundo levantamento do Ibope.

Uma revanche saboreada pelos uniformizados, que durante anos só se fizeram ouvir para defender seu regime especial de aposentadoria ou para evitar mudanças na lei de anistia.

O general da reserva Augusto Heleno, possível ministro da Defesa de Bolsonaro, disse ao jornal Folha de S.Paulo, em maio, que as Forças Armadas se sentiram "lisonjeadas" com esse reconhecimento social.

"É lógico que as Forças Armadas se sentem 'lisonjeadas' pela credibilidade que essas faixas demonstram, mas têm plena consciência de que esse não é o caminho. O caminho são as eleições que vão acontecer", enfatizou.

- O quartel, um modelo -

O golpe de 1964 foi apoiado por grandes grupos econômicos, a mídia, setores conservadores da Igreja católica e dos Estados Unidos, em nome da luta contra o comunismo e em defesa da família.

"Os valores das Forças Armadas são os mesmos, mas há uma outra geração de militares, formada pela geração que viveu o período militar e colocou na cabeça dos atuais generais que esse não era o caminho", explicou o general Heleno.

As críticas contra o comunismo parecem estranhas, três décadas após o fim da Guerra Fria.

O "bolsonarismo" designou novos inimigos: a corrupção, a criminalidade e chamada a ideologia de gênero.

Contra a "doutrinação" infantil, Bolsonaro propõe criar "escolas coordenadas por militares".

O general da reserva Oswaldo Ferreira, um possível ministro dos Transportes, considera o quartel um lugar com "regras claras" e "hierarquia", duas coisas que "fazem muito bem à sociedade".

O papel das Forças Armadas aumentou com a atual presidência de Michel Temer, que deu a eles o controle da segurança no Rio de Janeiro e nomeou pela primeira vez um militar para o ministério da Defesa.

Segundo Rosa Cardoso, ex-coordenadora da Comissão Nacional da Verdade, no Brasil "houve continuidade, sem ruptura com o regime autoritário".

- Subproduto da Lava Jato -

O "partido militar" foi fortalecido como "um subproduto da Lava Jato", que revelou o propinoduto da Petrobras, disse Nelson Düring, diretor do site especializado Defesanet.

"Ao atingir todo o espectro político, a Lava Jato enfraqueceu o sistema representativo, não apenas entre os militares, mas na população em geral, esquerda e direita", acrescentou.

Para muitos brasileiros, os militares são uma alternativa moral.

Uma versão questionada pelos historiadores e pela recente divulgação de um telegrama da Embaixada dos Estados Unidos, que, em 1984, se preocupava com o impacto social de vários casos de desvio de dinheiro.

- O preço do milagre -

O nostálgico da ditadura exalta o "milagre econômico" que, nos anos 1970, criou milhões de empregos.

Mas que custou caro, segundo as historiadoras Lilia Schwarcz e Heloísa Starling, que, em sua obra "Brasil: uma biografia", dão como exemplo o que aconteceu com a construção da Transamazônica.

"A construção da Transamazônica massacrou a floresta, consumiu bilhões de dólares, e até hoje a estrada tem trechos intransitáveis por conta das chuvas, dos desmoronamentos e das enchentes dos rios. A Transamazônica torrou um dinheiro que não havia, mas os brasileiros só entenderam isso na hora em que acabou o milagre e (...) o governo dos militares acabou", explicam.

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