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Estado de Minas

Jornalista desaparecido em Istambul complica as relações EUA-Arábia Saudita


postado em 10/10/2018 23:30

As acusações contra a Arábia Saudita pelo assassinato de um jornalista em seu consulado em Istambul forçam Donald Trump a assumir uma posição inesperada, uma vez que ele se vê obrigado a mencionar a questão dos direitos humanos com o reino que ele apoia firmemente.

Trump revelou nesta quarta-feira que manteve contatos "do mais alto nível" com os sauditas sobre o jornalista Jamal Khashoggi, desaparecido desde que entrou no consulado saudita em Istambul, no dia 2 de outubro.

"Estamos decepcionados com o que está ocorrendo. Não gostamos disto e queremos saber o que ocorreu", declarou o presidente.

A Casa Branca informou que dois assessores de Trump - seu genro Jared Kushner e o conselheiro de Segurança Nacional John Bolton - conversaram na terça-feira com o príncipe herdeiro saudita Mohamed bin Salman, antes de o secretário americano de Estado, Mike Pompeo, telefonar para pedir "detalhes" sobre o desaparecimento e "transparência do governo saudita sobre a investigação".

Senadores americanos - tanto republicanos como democratas - ativaram a lei que obriga o presidente a informar o Congresso sobre o caso no prazo de 120 dias.

Se ficar estabelecido que um estrangeiro é culpado de execução sumária, tortura ou outro ataque aos direitos de Khashoggi, Washington poderá impor sanções aos responsáveis.

A Arábia Saudita foi o primeiro destino de Trump ao assumir a presidência dos Estados Unidos, e não só bajulou o ambicioso príncipe Mohamed bin Salman, como também se aliou estreitamente com o reino em um esforço para isolar seu rival regional, o Irã.

Trump tem permanecido em silêncio sobre questões de direitos humanos, em um momento no qual os Estados Unidos apoiam a campanha liderada pela Arábia Saudita contra os rebeldes no Iêmen, que, segundo um relatório da ONU, matou milhares de civis. Além disso, apoiou o príncipe Mohamed - também conhecido por suas iniciais MBS - quando deteve dezenas de pessoas em uma polêmica campanha de repressão contra dissidentes lançada desde que foi designado em junho de 2017.

O vice-presidente americano, Mike Pence, se declarou na segunda-feira "profundamente preocupado" com as fortes suspeitas de que Jamal Khashoggi, reconhecido colunista saudita radicado nos Estados Unidos e colaborador do Washington Post, foi assassinado após entrar no consulado saudita. Pence declarou que, se for verdade, será algo "trágico".

As autoridades sauditas insistem que o jornalista saiu do consulado em Istambul.

- Clima ruim para direitos humanos? -

Os críticos de Trump dizem que o presidente contribuiu para criar uma atmosfera que pode ter impulsionado a Arábia Saudita a silenciar questionamentos estrangeiros.

Trump ataca os meios de comunicação com frequência, chamando os jornalistas de "inimigos do povo", e só deu ênfase aos direitos humanos para pressionar rivais como Irã e China.

O caso Khashoggi coloca Trump, inesperadamente, do lado da Turquia, país onde os funcionários de alto escalão têm sido punidos com sanções pela detenção de um pastor americano.

Considerando que a resposta inicial sobre o caso Khashoggi foi tardia e fria, Margon disse que o exemplo turco mostrou que a administração Trump "tem as ferramentas e a capacidade de responder rapidamente, é somente uma questão de vontade".

Aaron David Miller, negociador dos Estados Unidos no Oriente Médio por um longo tempo, escreveu no Twitter que "ao não desafiar MBS por nada, nem pela repressão, o governo de Trump o encorajou e lhe deu a sensação de que pode fazer qualquer coisa".

- Tolerância zero -

Sob a administração de MBS, a Arábia Saudita mostrou que não tolera nenhuma crítica estrangeira.

Em agosto, o reino expulsou o embaixador canadense e congelou o comércio e investimentos depois que Ottawa expressou a sua preocupação com os ativistas presos no reino.

Os Estados Unidos, com sua associação militar e enérgica de décadas com a Arábia Saudita, contudo, tem muito mais influência do que o Canadá.

Mas uma relação menos amistosa poderia complicar outros objetivos dos Estados Unidos, como organizar uma reunião de aliados do Golfo Pérsico para promover a reconciliação com o Catar, sob embargo por parte de seus vizinhos durante mais de um ano devido a disputas que incluem a sua relação com Teerã.

Analistas dizem que a administração Trump se viu obrigada a tomar uma posição no caso de Khashoggi depois que a mídia e, especialmente, os legisladores no Capitólio pediram explicações sobre o desaparecimento ou morte do jornalista.

"Esta história acrescentará tensão às relações, mas, principalmente, na opinião do Congresso sobre a Arábia Saudita", disse Gerald Feierstein, um diplomata veterano americano que foi embaixador do Iêmen.

"Muitas pessoas verão e concluirão que o governo saudita simplesmente se desviou, pelo que será uma complicação para a administração", disse Feierstein, agora no Instituto do Oriente Médio de Washington.

Em março, o Senado fracassou por pouco em aprovar a restrição de apoio à campanha da Arábia Saudita no Iêmen por preocupações com os direitos humanos.

O secretário de Defesa, Jim Mattis, disse que o Pentágono estava "monitorando" a situação na Turquia, e destacou a necessidade do apoio militar americano para "proteger o povo saudita".

"Estiveram sob o fogo dos huthis aliados com os iranianos. Estamos tentando garantir que não haja pessoas inocentes morrendo lá agora", disse.

Mas o senador republicano Lindsey Graham, que se autodenomina um dos aliados mais próximos de Trump, disse que se as acusações de irregularidades sauditas forem verdadeiras, "seria devastador para a relação entre Estados Unidos e Arábia Saudita, e haveria um alto preço a pagar, economicamente e de outra forma".

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