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Estado de Minas

Bolsonaro desafia adversários com entrevista exclusiva durante debate


postado em 05/10/2018 06:00

Jair Bolsonaro, que lidera as pesquisas para o primeiro turno das eleições presidenciais do próximo domingo, obteve nesta quinta-feira um protagonismo inédito com uma entrevista exclusiva à TV Record, no momento em que seus adversários participavam do debate na TV Globo, do qual se recusou a participar por motivos de saúde.

O candidato do PSL divulgou inclusive uma foto nas redes sociais na qual assiste um programa de humor enquanto o debate eleitoral ainda acontecia.

Em um insólito final de campanha, Bolsonaro foi entrevistado pela Record e atirou pesado contra o ex-presidente e atual detento Luiz Inácio Lula da Silva e seu afilhado político Fernando Haddad.

"Não podemos admitir essa ideologia no Brasil. Será o fim da nossa pátria se o PT conseguir chegar ao poder", advertiu Bolsonaro.

"Não podemos deixar que um partido que mergulhou o país na mais profunda crise ética, moral e econômica volte ao poder com as mesmas personalidades. E você pode ver, tudo é conduzido de dentro da cadeia pelo senhor Lula, que indica aí um fantoche seu chamado Haddad que por incompetência sequer conseguiu passar para o segundo turno na sua eleição (reeleição para prefeito) em São Paulo".

"A corrupção está colada no PT, o PT não deu certo, é um partido que traiu os tralhadores e que tem um projeto de poder".

O deputado federal e ex-capitão do exército, que não esconde a admiração pela ditadura brasileira (1964-1985), atacou o PT por sua proximidade com a Venezuela de Nicolás Maduro, na entrevista concedida em sua casa no Rio de Janeiro.

Bolsonaro, ferido por uma facada em um ato de campanha em 6 de setembro e que permaneceu hospitalizado até sábado passado, afirmou que não participou do debate por recomendação médica.

Mas o fato de ter concedido uma entrevista o transformou em alvo de críticas dos oponentes.

Ciro Gomes (PDT) considerou "uma falta de cultura democrática e uma demonstração de que Bolsonaro é um fascista". A ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva afirmou que o candidato de extrema-direita "amarelou".

O ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles também criticou: "Se alguém se esconde e dá uma entrevista não tem condições de administrar um país".

Haddad aproveitou a ausência de Bolsonaro no debate na Globo para criticar as medidas de austeridade iniciadas pelo governo de Michel Temer que, segundo o candidato do PT, o capitão pretende aprofundar.

"Cortar direitos dos trabalhadores para (ajustar) as contas públicas, isto não se faz. O PT jamais o fará. O que está ocorrendo no Brasil é um absurdo".

Marina Silva - como os demais candidatos - bateu em Bolsonaro mas também aproveitou o debate para criticar a polarização entre o campeão da extrema direita e o PT: "Alguns estão votando por medo de Bolsonaro e outros estão votando por medo de Haddad, ou estão votando porque têm raiva. Estaremos fechando as portas para o futuro se continuarmos com esta política do medo".

Ciro Gomes, que ocupa a terceira posição nas pesquisas, também questionou o "choque entre duas personalidades" de pediu ao eleitor que "não vote por ódio nem por vingança, vote pelo Brasil".

Marina e Ciro concordaram em que não existem "salvadores da pátria", em referência direta a Bolsonaro.

Bolsonaro apostou nas redes sociais e na entrevista à Record para confrontar o debate organizado pela Globo e roubar a cena da mídia em um dia-chave.

A entrevista de Bolsonaro à Record lhe deu exposição exclusiva, enquanto os outros candidatos dividiram as atenções dos espectadores, apesar das frequentes críticas ao capitão.

Bolsonaro não participa de nenhum comício eleitoral desde que foi ferido e já antes havia manifestado sua reticência a participar dos debates.

- Boicote ao debate -

O capitão, de 63 anos, lidera as pesquisas de intenção de voto para o primeiro turno, com dez pontos de vantagem sobre Haddad, 55.

Se estas projeções se confirmarem, os dois dirigentes definirão o pleito em segundo turno, celebrado em 28 de outubro.

Seria um confronto entre dois modelos para um país mergulhado em crise econômica, política e de segurança.

O PT, envolvido em vários escândalos de corrupção em seus treze anos no poder (2003-2016), promete voltar atrás nas medidas de austeridade aprovadas durante o governo do presidente em fim de mandato Michel Temer e defende a proteção de ativos nacionais, como as empresas públicas.

Bolsonaro, assessorado pelo economista Paulo Guedes, apregoa ao contrário reformar o custoso regime previdenciário e impulsiona as privatizações para reduzir o enorme déficit fiscal e conter o aumento da dívida pública.

Haddad busca mobilizar os seguidores do PT no interior do país, especialmente àqueles que se beneficiaram das políticas sociais durante os governos de Lula e Dilma Rousseff desde 2003.

Bolsonaro, cuja mensagem antissistema e de enaltecimento da ditadura militar (1964-1985) conquistou mais de um terço do eleitorado, aposta por sua vez na capilaridade que as redes sociais lhe dá entre seus seguidores.

Ao não participar do debate, Bolsonaro evitou contrapor suas ideias com as de outros candidatos com menor percentual de votos, nem enfrentou seu principal adversário.

Seus seguidores entendem que esta é a forma correta de entrar na reta final desta dura campanha eleitoral, a ponto de usarem Whatsapp e Twitter para convocar o boicote ao debate organizado pela Globo.

Nas ruas do País percebem-se os últimos estertores de uma campanha dominada pela incerteza, em primeiro lugar sobre a participação do ex-presidente Lula, que acabou impedido de se candidatar e seguirá preso cumprindo pena de 12 anos e um mês por corrupção e lavagem de dinheiro.

E também no que diz respeito ao resultado de domingo e a um eventual segundo turno, com um Bolsonaro que deverá, então, se mostrar ao público se quiser reduzir sua rejeição, de 46%, o mais alto entre os treze candidatos que participam das eleições.

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