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Estado de Minas

Brasil na mira de Trump após legitimar táticas linha dura no comércio


postado em 03/10/2018 09:18

O Brasil deve colocar suas barbas de molho no que diz respeito à sua relação comercial com os Estados Unidos, depois que o presidente Donald Trump mirou no país esta semana, ao celebrar o sucesso de sua tática linha dura na revisão do Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês).

Para muitos analistas, os Estados Unidos não ganharam muito com o novo Nafta, rebatizado de Acordo entre Estados Unidos, México e Canadá (USMCA), e que deveria, de qualquer modo, modernizar-se após 24 anos em vigor.

O fato é que as ameaças de represálias aos principais sócios comerciais dos EUA deram resultado.

"Sem tarifas, não estaríamos aqui", afirmou Trump.

"Em muitos casos, sequer temos de usá-las", acrescentou um triunfante Trump, na entrevista coletiva sobre o USMCA, na segunda-feira.

Atualmente, o tema diz respeito, sobretudo, à China, sujeita às sanções tarifárias sobre metade de suas exportações aos Estados Unidos, mas também à União Europeia e ao Japão, que já têm frentes abertas com Washington; à Índia, a qual, segundo Trump, tem interesse em conversar; e... o Brasil.

"O Brasil está entre os mais difíceis, talvez o mais difícil do mundo" para fazer negócios, disse Trump.

"É uma beleza. Nos cobram o que querem", acrescentou, acusando o país de tratar "injustamente" as empresas americanas.

Trump contrapôs a situação do Brasil à da Índia, que quer iniciar negociações comerciais com os Estados Unidos "imediatamente".

- Por que o Brasil? -

"O Brasil continua sendo uma economia relativamente fechada", disse à AFP o diretor do Centro para América Latina do Atlantic Council, Jason Marczak.

Com o USMCA, Trump abriu a porta para "aprofundar a relação comercial", algo que os Estados Unidos buscam desde o final dos anos 1990, acrescentou.

"Era de se prever que, após concluir a renegociação do Nafta, o próximo da lista fosse o Brasil", afirmou o especialista em política comercial Nicolás Albertoni, da University of Southern California (USC), ao destacar o peso da economia brasileira no mundo e sua atração para os investidores americanos.

Em 2017, o Brasil saiu de uma recessão de dois anos, com uma expansão de 1% do PIB, e o FMI estima um crescimento de 1,8%, para este ano, e de 2,5%, para 2019, impulsionado por uma recuperação no consumo interno e no investimento.

À medida que emerge lentamente de uma recessão, caberia ao Brasil captar investimentos, sobretudo, em indústrias que geram emprego, afirmou a diretora do Programa de América Latina, Cynthia Arnson, do Wilson Center.

"Dito isso, a probabilidade de que o 'bullying' promova a relação Brasil-Estados Unidos é muito pequena e negligente", apontou.

- Brasil não é México -

Para Kimberly Ann Elliott, especialista em comércio do "think tank" Center for Global Development, a advertência de Trump é clara: "Põe você na mira".

Mas, segundo ela, o alcance da intimidação depende do quão desesperado um país esteja para ter acesso ao mercado americano.

"Canadá e México eram, claramente, muito dependentes e tinham que ter um acordo", disse ela, acrescentando que o Brasil depende menos dos consumidores americanos, e a relação comercial é bastante pequena.

O Brasil registrou um excedente de 2,026 bilhões de dólares em suas trocas comerciais com os Estados Unidos em 2017, com exportações que somaram 26,872 bilhões de dólares, e importações de 24,846 bilhões, segundo o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC).

"No caso do Brasil, o principal sócio comercial é a China. Embora os benefícios do investimento americano no Brasil sejam importantes, o tamanho da economia brasileira e a diversidade de suas relações econômicas a tornam menos vulnerável às demandas dos Estados Unidos", explicou Arnson.

- Fator político -

Outro fator a ser levado em consideração é a necessidade de que exista consenso interno para levar conversas comerciais adiante.

Albertoni afirmou que Trump sabe que a situação política brasileira, com uma conflituosa eleição presidencial, deixa o país "mais vulnerável" do que tem sido historicamente para uma negociação comercial. Para ele, porém, isso também poderia jogar contra os Estados Unidos.

"Para essas batalhas comerciais são necessários consensos internos, porque ninguém quer perder. E, se há algo que não tem hoje no Brasil, é consenso", completou.

Ele destacou também que o Brasil precisa diversificar mercados e, eventualmente, deverá atender aos Estados Unidos.

"Hoje, os Estados Unidos são quase tão importantes quanto a China para o Brasil. Assim, tendo um conflito comercial na porta, não restará outra opção a não ser sentar para negociar", completou.

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