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Estado de Minas

Escândalo de áudios de juízes opaca caso Odebrecht no Peru


postado em 07/08/2018 21:00

Há um mês, a imprensa peruana começou a divulgar áudios de ligações telefônicas de proeminentes juízes, desatando um escândalo que tirou o foco do caso dos aportes milionários a candidatos presidenciais pela construtora brasileira Odebrecht.

Doze pessoas foram presas até agora pelos áudios de supostas vendas de sentenças e trágico de influência, e o Congresso avalia destituir o procurador-geral Pedro Chávarry e o juiz da Suprema Corte César Hinostroza.

O presidente da Federação Peruana de Futebol, Edwin Oviedo, também está por um fio, após serem publicados áudios que revelaram laços estreitos com o juiz Hinostroza e um bem-sucedido empresário que ganhava contratos milionários de construção com a entidade esportiva.

Isso atrasou a renovação do contrato do técnico argentino Ricardo Gareca com a seleção peruana e provocou a renúncia de uma dezena de dirigentes diante da recusa de Oviedo a se afastar.

O escândalo, que veio à tona em 8 de julho, também provocou a renúncia do presidente da Suprema Corte, Duberlí Rodríguez, e a destituição do ministro de Justiça, Salvador Heresi.

Mas este caso, que domina a imprensa e é o principal assunto em bares e cafés, deixou praticamente esquecido o escândalo da Odebrecht, que envolve quatro ex-presidentes peruanos.

O paradoxo é que a lentidão judicial dos dois casos leva a população a perder o interesse pelos escândalos, afirmaram analistas à AFP.

"Os assuntos dos áudios desatam a fúria das pessoas, mas depois fica por isso, até um próximo escândalo", disse o analista político Fernando Tuesta.

"Já não nos choca" o assunto da corrupção, apesar de que "estejamos em uma espécie de época de ordem moral", acrescenta.

- Quatro ex-presidentes investigados -

A Odebrecht, que está colaborando com a Justiça, confessou que fez contribuições milionárias às campanhas dos últimos quatro ocupantes da presidência peruana, em 2006 e 2011, bem como à opositora Keiko Fujimori. Todos eles negam, mas estão sendo investigados.

"Teremos áudios por um tempo. Somos a audiolândia, e só uma grande revelação trará de volta o caso Odebrecht", afirma à AFP o cientista político Juan de la Puente.

"O de agora é uma novela nacional, com artistas nacionais; a Odebrecht é uma brasileira, ou uma co-produção", acrescenta.

Foi justamente o escândalo da Odebrecht que marcou o início do fim do governo de Pedro Pablo Kuczynski em dezembro passado, depois que a empresa revelou que havia pago quase 5 milhões de dólares em consultorias para empresas ligadas a ele.

Kuczynski havia negado qualquer vínculo com a construtora, até que sua própria empresa lhe desmentiu.

A partir daí, o Congresso dominado pela oposição de Fujimori foi encurralando Kuczynski, que finalmente jogou a toalha e renunciou em 21 de março, após apenas 20 meses de governo.

Mas seus três antecessores também estão envolvidos no escândalo da Odebrecht: Alan García (2006-2011), Ollanta Humala (2011-2016) e Alejandro Toledo (2001-2006). O último enfrenta um pedido de extradição dos Estados Unidos, onde reside.

- 'Passamos anos denunciando' -

"Ambos os cenários, o da Odebrecht e o caso dos áudios, estão perdendo o interesse", alerta o analista político e jornalista Mirko Lauer à AFP.

"Nós realmente passamos o ano denunciando a corrupção, condenando-a e perseguindo-a, mas só a conhecemos por seus sinais externos", escreveu Lauer nesta terça-feira no jornal La República. Para ele, a corrupção já faz parte da cultura do país.

O caso da Odebrecht pode voltar às manchetes nas próximas semanas, depois que o Ministério Público assinou um acordo com a construtora na semana passada para relançar as investigações.

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