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Estado de Minas

Prisão de ativistas faz subir tom entre Riade e Ottawa


postado em 06/08/2018 22:12

O Canadá reafirmou nesta segunda-feira (6) sua determinação de defender os direitos humanos no mundo, mesmo após o anúncio da expulsão de seu embaixador em Riade pelas críticas de Ottawa à repressão a militantes na Arábia Saudita.

"Deixem-me ser muito clara [...]. O Canadá sempre apoiará os direitos humanos, no Canadá e em todo o mundo, e os direitos das mulheres são direitos humanos", declarou a ministra canadense de Relações Exteriores, Chrystia Freeland, na abertura de uma conferência sobre igualdade em Vancouver, uma referência explícita à crise com Riade.

Horas antes, o reino ultraconservador tinha dado 24 horas ao enviado de Ottawa, Denis Horak, para deixar o país devido à sua "ingerência" nos assuntos internos, chamou para consultas seu embaixador no Canadá e anunciou a suspensão das relações comerciais entre os dois países.

Este confronto diplomático ocorreu depois que a embaixada canadense se mostrou "gravemente preocupada" por uma nova onda de detenções de ativistas pró-direitos humanos no reino. As autoridades sauditas consideraram "inaceitável" que os canadenses reclamassem a "libertação imediata" dos militantes.

O Canadá não mudou seu discurso, apesar das decisões anunciadas pela Arábia Saudita. "Nossa política externa, baseada em nossos valores, nosso apoio aos direitos humanos e aos direitos das mulheres é uma parte essencial do que somos quando falamos em nome do Canadá", insistiu a ministra das Relações Exteriores.

Diante da firmeza canadense, Riade anunciou novas medidas nesta segunda: a suspensão das bolsas universitárias para seus cidadãos no Canadá e transferência dos estudantes para outros países.

A companhia aérea nacional Saudia Airlines anunciou, por sua vez, a suspensão dos voos com destino e procedentes de Toronto, a grande metrópole canadense.

O reino "rejeita qualquer ingerência em assuntos internos e tentará qualquer ingerência com determinação", reafirmou na segunda-feira o ministro saudita de Relações Exteriores, Adel al Jubeir, que considerou que as críticas canadenses "se baseavam em informações enviesadas".

Ottawa lamentou, por sua vez, a decisão da Arábia Saudita com relação a seus estudantes. "Acho que seria uma verdadeira pena que estes estudantes sejam privados do direito de estudar aqui", disse a ministra das Relações Exteriores.

- "Repressão governamental" -

Freeland havia criticado na semana passada a detenção de Samar Badaui, militante dos direitos humanos na Arábia Saudita, uma das últimas vítimas do que a ONG Human Rights Watch chamou de "uma repressão governamental sem precedentes contra o movimento dos direitos das mulheres".

Samar Badaui recebeu o Prêmio Internacional às Mulheres de Coragem 2012, concedido pelo Departamento de Estado americano. Fez campanha pela libertação de seu irmão, Raef al Badaui, um blogueiro dissidente, e pela de Walid Abu al Jair, seu ex-marido.

O cidadão saudita Raef al Badaui está preso desde 2012 por declarações feitas em seu blog. Em novembro de 2014, foi condenado a dez anos de prisão e 1.000 chibatadas por "insulto ao islã".

A esposa de Raef al Badaui, Ensaf Haidar, está radicada em Quebec com seus três filhos desde o fim de 2013.

As prisões de Samar Badaui e de seu colega ocorreram semanas depois das de militantes de direitos humanos acusadas de atentar contra a segurança nacional e de colaborar com os inimigos do Estado. Algumas foram libertadas posteriormente.

O jovem príncipe-herdeiro introduziu recentemente uma série de reformas, como a autorização para as mulheres dirigirem, com as quais busca melhorar a imagem ultraconservadora do reino.

Paralelamente, Mohamed bin Salmán, de 32 anos, pratica uma política externa agressiva, chamando por exemplo a exercer um embargo contra seu vizinho, o Catar, ou bombardear os rebeldes huthis, aliados de seu rival Irã no Iêmen, ao mesmo tempo em que impede qualquer forma de oposição na Arábia Saudita.

"É mais simples romper os vínculos com o Canadá do que com os outros" países, explica Bessma Momani, da Universidade de Waterloo no Canadá.

"Não há vínculos comerciais sólidos e atacar o governo de (Justin) Trudeau pode ter certo impacto com aliados regionais belicistas da região. Os milhares de estudantes sauditas no Canadá poderiam, por sua vez, sofrer as consequências", acrescenta.

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