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Estado de Minas

Pré-candidata democrata sonha em ser 1ª muçulmana no Congresso dos EUA


postado em 03/08/2018 10:12

É uma visão incomum: uma mulher coberta com um véu rosa, parada no canteiro central de uma avenida de Massachusetts, saudando os automóveis que passam e pedindo a estranhos que votem em sua candidatura ao Congresso dos Estados Unidos.

"Como vai? Que bom te ver!", diz uma alegre Tahirah Amatul-Wadud a um pedestre. Um ou outro carro costuma buzinar, e há motoristas que baixam o vidro para cumprimentá-la. Muitos passam ao seu lado, porém, aparentemente alheios a seu objetivo.

Tahirah tem sete filhos, é advogada, ativista comunitária e muçulmana. Levanta-se antes do amanhecer, reza cinco vezes ao dia e jejua durante o Ramadã.

Aos 44 anos, ela enfrenta o maior desafio de sua vida: pedir a eleitores majoritariamente brancos e católicos que a convertam na primeira muçulmana eleita ao Congresso.

Segundo ela, tudo gira em torno da política, não da religião. Trata-se de representar e melhorar as vidas dos moradores do oeste de Massachusetts, uma área de maior desemprego em relação à média nacional, e onde muitos têm dois trabalhos para sobreviver.

"Não falo sempre de religião, porque não estou buscando servir, ou liderar de uma perspectiva religiosa", disse ela à AFP na sede de sua campanha, na periferia de Springfield.

A pré-candidata garante que suas metas são seculares, mas é na fé "que encontro o centro da minha força", afirma.

Incansável, armada com um sorriso acolhedor e com um cérebro de advogado, Amatul-Wadud faz parte de uma onda de mulheres e democratas progressistas que tentam ser eleitas este ano, com o objetivo de engrossar as fileiras de oposição ao presidente Donald Trump.

Ela é uma das cinco pré-candidatas que buscam se tornar a primeira mulher muçulmana no Congresso nas eleições de meio de mandato nos EUA, em novembro, 12 anos depois de Keith Ellison, de Minnesota, ter sido o primeiro muçulmano na Câmara de Representantes americana.

Se for bem-sucedida, também será a primeira mulher afro-americana de seu distrito no Congresso.

- 'A esperança é possível' -

A tarefa não é fácil, porém. Seu concorrente na primária democrata de 4 de setembro é Richard Neal, no Congresso desde 1989. Até o momento, ela arrecadou 72.000 dólares, contra os três milhões de Neal.

Quando se mudou para Springfield aos nove anos, Neal já era prefeito da cidade.

Agora, tenta tomar seu posto, defendendo causas progressistas, como saúde e educação para todos e um maior acesso à Internet de alta velocidade, ao mesmo tempo em que evita doações de interesses corporativos.

Sua equipe garante ter quase 300 voluntários em uma campanha comunitária, batendo de porta em porta para ouvir os problemas da população.

Se derrotar Neal, repetirá a vitória da novata na política Alexandria Ocasio-Cortez, de 28 anos, que venceu neste verão (hemisfério norte) um veterano democrata em uma primária em Nova York com propostas progressistas similares. Essa vitória deu ânimo à sua campanha e aumentou as doações.

"Foi genial", disse Amatul-Wadud. "Se ela conseguiu ganhar, então a esperança é possível aqui na nossa casa", completou.

Com um vestido de estampa floral sobre uma calça preta, ela avança no calor pegajoso da tarde, fazendo brincadeiras e pedindo votos no churrasco de uma igreja.

"A comunidade parece importar muito para ela", comenta Ira Prude, funcionário de uma fábrica, de 28 anos, que se preocupa com a dependência das drogas, os sem-teto e o crime violento.

- 'Hora de uma mudança' -

Quando Amatul-Wadud interrompe o evento, alguns olham, surpresos.

"Há momentos em que posso ver que as pessoas se surpreendem que me apresente da forma como eu faço", diz ela à AFP. "Mas tenho de enfrentar um racismo aberto, debaixo do meu nariz? Não, sou agradecida por isso. Espero que nunca aconteça", completou.

Apesar do aumento da intolerância em nível nacional, ela sofre racismo e islamofobia "apenas" na Internet e pediu à filha adolescente que elimine comentários on-line "infames" que estão "assustando" as pessoas.

Ainda que sua motivação para se candidatar ao Congresso seja a insatisfação com o "status quo" em sua comunidade, ela admite que a eleição de Trump "mudou tudo".

"Parte de sua política, parte de seu caráter é alarmante para as pessoas... Tenho amigos e vizinhos, clientes que me disseram que acordavam sentindo que tinham um elefante no peito", comentou.

Deanna Williams, de 56 anos, uniu-se à campanha, após ser demitida este ano. Amatul-Wadud foi sua advogada durante seu divórcio.

"É hora de uma mudança. O oeste de Massachusetts está sofrendo, e precisamos de mais gente em Washington para ajudar na causa", disse à AFP. "Muitas pessoas estão sofrendo e não têm emprego", acrescentou.

Na sede da campanha, Amatul-Wadud se declara "muito" confiante de que vencerá sua batalha de Davi versus Golias contra Neal.

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