Publicidade

Estado de Minas

Iraquianos buscam alternativas ante crise endêmica de eletricidade


postado em 01/08/2018 16:18

Em seu restaurante em Bagdá, Al Hussein quer que seus clientes se sintam confortáveis a qualquer custo, ainda que precise pagar caro por um gerador, por causa de uma grande escassez de eletricidade que afeta o cotidiano dos iraquianos, resignados a recorrer a sistemas alternativos.

Na falta de uma solução radical há anos, os cortes de eletricidade crônicos no Iraque, onde a temperatura beira os 50 graus no verão, provocaram novas manifestações no país e chegaram a custar o cargo do ministro do setor.

Atualmente, só há "de quatro a cinco horas de eletricidade" diárias através da rede pública, afirmou à AFP Muthana Mehdi, que gerencia uma loja de alimentos em Bagdá.

Nas 20 horas restantes, os iraquianos viajam no tempo, um século mais precisamente, antes da instalação da primeira turbina elétrica, em 1917.

Para tentar se refrescar sob um sol abrasador, a única solução, explica Mehdi, é alternar entre a eletricidade pública, que chega a duras penas, e vários geradores.

No Iraque, o 12º país mais corrupto do mundo, segundo classificações internacionais, boa parte dos 40 bilhões de dólares, que o orçamento dedica ao setor elétrico há quinze anos, desapareceu.

O dinheiro de contatos fantasma acabou no bolso de empresários ou políticos corruptos, que nunca iniciaram as obras necessárias.

Para manter funcionando os aparelhos de ar condicionado, os refrigeradores e outros eletrodomésticos necessários para o dia a dia, alguns utilizam pequenos geradores a gasolina que devem ser ativados manualmente.

Outros recorrem a imponentes geradores instalados por pequenos empresários em toda esquina, dos quais emerge um emaranhado de cabos que às vezes causam curto-circuitos e até mesmo incêndios.

- 10 euros o ampere -

Quando funcionam, é preciso colocar a mão no bolso e pagar "quantias que muitos iraquianos não podem, sobretudo os desempregados", dos quais há muitos no país, assegura Mehdi, de 40 anos.

"Cada ampere custa 15.000 dinares", uns dez euros por mês, explica. Ele se limita a usar cinco, embora "isto não baste para deixar funcionando ao mesmo tempo o ar condicionado e todas as luzes".

Durante as poucas horas que há eletricidade pública, os iraquianos ligam o ar condicionado. Mas, quando a energia é cortada, lançam mão de resfriadores de ar, que só precisam de água e consomem dois amperes.

Em seu restaurante em Bagdá, chamado Abu Al Jeir, Ali Hussein não poupou para garantir o conforto de seus clientes, comprando 15 amperes de um empresário que tem um gerador a 15.000 dinares o ampere.

Com estes preços, o negócio dos geradores deixa muita gente feliz. "Se esta crise se resolver, perdemos nosso trabalho", diz, preocupado, Hussein Kazem, que abastece de combustível seu pequeno caminhão-tanque.

- "Mentiras e roubos" -

No começo de julho, um movimento de protesto popular chegou ao sul rural, devastado pela seca, e agitou Bagdá durante dias. As manifestações deixaram 14 mortos.

Diante disso, o premiê Haider Al Abadi destituiu o ministro da Eletricidade, Qasem Al Fahdaui, artífice da "privatização" do setor, que a princípio devia assegurar energia 24 horas por dia.

O projeto funcionou bem durante alguns meses nas poucas regiões onde foi testado, mas com a elevação das temperaturas, foi interrompido e voltaram os cortes.

Embora as autoridades assegurem que desde 2014 a produção de energia elétrica passou de 11.000 a 17.000 megawatts, segundo os especialistas, pelo menos 40% da demanda de eletricidade não pode ser atendida no verão.

"Não passam de mentiras e roubos", denuncia Mazen, enquanto conserta um gerador. "Os dirigentes não fizeram mais que desviar o dinheiro que colocaram no exterior e quando dizem que a situação melhora, pode estar certo de que mentem!".

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade