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Estado de Minas

Parada no tempo, Havana caminha para seus 500 anos


postado em 01/08/2018 10:30

Havana pode ser comparada com um "almendrón", esses coloridos carros dos anos 1950 que abundam em suas ruas: um modelo fora do mercado, mas com seus traços originais e reparado com peças inventadas em Cuba. Um objeto de desejo de historiadores e turistas.

Caminhar pela cidade é viajar no tempo. Vários de seus prédios estão consumidos pelo salitre do mar, que às vezes castiga o calçadão. De lá, no fim do dia, o sol pinta o céu de um laranja incandescente antes de submergir no mar do Caribe.

Para além da deterioração, Havana continua espiritualmente viva. Completará 500 anos em 2019, em meio a um plano de recuperação de seu centro urbano e com a perspectiva de dar espaço, em algum momento, a uma cidade moderna que respeite o clássico.

"Havana ficou como que parada no tempo. A vontade da Revolução foi se ocupar do país", diz à AFP Eusebio Leal, o Historiador da Cidade e a máxima autoridade para a restauração do centro histórico.

"Isso teve um custo inegável. Quando você percorre a cidade, observa que está muito danificada e coberta por um véu decadente", completou.

"Paradoxalmente, isso serviu para que esteja intacta urbanisticamente. Não se construíram na cidade novas pontes, novas avenidas suspensas, não há pressão de trânsito, não há demolições em massa como aconteceu em outras cidades latino-americanas", explica.

Pelo menos 39% das casas em Cuba se encontram em estado regular, ou em má condição de conservação, segundo dados oficiais.

- Fonte de cultura -

Leal pede que não se restrinja à superficialidade.

"Havana não é apenas uma ruína romântica, tampouco é uma cidade apenas de automóveis velhos americanos, nem uma cidade de rumba e palmeiras. Uma cidade de uma cultura intensa", explica.

"O que surpreende é que não há tempo para assistir a uma vida cultural que vá do festival do balé ao do livro, ao de cidades patrimoniais e ao do jazz. E, nas artes plásticas, é uma das mais desejadas pelo colecionismo mundial", detalha.

O Gran Teatro de La Havana "Alicia Alonso", de estilo neobarroco e cercado de esculturas de mármore, ou o majestoso Capitólio e sua enorme cúpula - cuja restauração total deve estar concluída em 2019 -, destacam-se, com música em cada esquina.

Depois da abertura para o investimento estrangeiro na última década, lojas de luxo de marcas "capitalistas", ou restaurantes e hotéis edificados dentro de construções antigas são parte da paisagem, compartilhando espaço com decadentes prédios de tetos altos e varandas coloniais.

"Havana foi palco, nos últimos dez anos, de uma injeção poderosa dada pela ação individual (...) que permitiu a ressurreição da arquitetura doméstica e uma criação de postos de trabalho", explica Leal.

Grande responsável por isso foi a abertura dos negócios por conta própria, que hoje representam 13% da força de trabalho do país. Hospedagens privadas e restaurantes atendem à demanda turística, em meio à abertura econômica.

- Antes que tudo mude -

Uma das cidades mais antigas da América, Havana foi uma moderna urbe no início do século XX, mas também um paraíso de organizações mafiosas. Depois da vitória da Revolução em 1959, erradicaram-se os prostíbulos e cassinos que inundavam a ilha.

Como admite o próprio Leal, sofreu-se a deterioração da espera. Ainda assim, suas ruas pouco iluminadas e com buracos não têm a insegurança que assola outros países. Em 2017, chegaram à ilha 4,5 milhões de turistas em busca de um eterno verão.

"Havana é uma cidade alegre, divertida e com um povo prestativo e hospitaleiro. Um lugar onde me senti segura ao andar pelas ruas", disse à AFP a brasileira Débora Naves, uma funcionária do setor judiciário de 41 anos, de férias na cidade.

"Mas acho que, para poder refletir toda a riqueza cultural que possui, precisa de investimento", acrescentou.

Leal aponta que "essa visão que temos de uma cidade viva, mas tranquila, de um país em paz, sem crimes colossais, seja um atrativo interessante". Segundo ele, as pessoas querem conhecer Havana "antes que tudo mude".

Depois de seis décadas de embargo dos Estados Unidos, Leal diz que o mundo se abriu lentamente para Cuba. Ainda resta muito por fazer, porém.

A chave está - acredita ele - em que os cidadãos do futuro possam conduzir Havana para "um novo tempo econômico e social que tenha a moderação de respeitar o encanto da cidade sem, por isso, limitar sua capacidade de viver uma outra e intensa modernidade".

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