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Estado de Minas

Quando crianças americanas enfrentam a deportação dos pais migrantes


postado em 15/06/2018 16:00

Ele saiu para entregar uma pizza no Brooklyn e acabou em uma prisão de Nova Jersey, na fila para ser deportado: o caso de um equatoriano, pai de duas meninas, revela a situação de milhões de menores americanos que vivem com pais em situação irregular sob ameaça de expulsão iminente.

O presidente americano, Donald Trump, chegou ao governo com a promessa de deportar os mais de 10 milhões de imigrantes ilegais nos Estados Unidos, a maioria deles do México e da América Central.

Mas a situação não é tão simples, uma vez que muitos criaram raízes no país, às vezes décadas atrás, e têm cônjuge, filhos e até netos americanos.

Mais de cinco milhões de crianças vivem nos Estados Unidos com pelo menos um pai em situação irregular. Destes, 4,1 milhões são americanos, de acordo com dados do Migration Policy Institute (MPI), um think tank independente de Washington DC.

O entregador detido em 1º de junho quando entregava uma pizza em uma base militar, Pablo Villavicencio, de 35 anos, vive e trabalha em Nova York há mais de oito anos.

Ele tinha uma ordem de deportação pendente, mas tramitava seu "green card", a permissão de residência permanente.

Se for deportado, a família será separada, a menos que sua esposa e filhas de dois e três anos - as três americanas - deixem o país. Também perderão sua principal fonte de sustento.

"Minhas filhas precisam do pai, elas sentem muita falta dele", disse sua esposa, Sandra Chica, em um vídeo postado no Twitter na quarta-feira.

Os advogados da Legal Aid que representam Villavicencio gratuitamente conseguiram que um juiz freasse sua expulsão e agora tentam sua libertação. Uma audiência foi marcada para 20 de julho.

- Famílias separadas -

"O caso de Pablo não é único. Recebeu muita atenção, mas isso está acontecendo o tempo todo em todo o país, na fronteira, nas cidades, em Long Island, no Brooklyn...", declarou à AFP Gregory Copeland, advogado de Villavicencio.

Villavicencio "é um pai muito presente, suas filhas são o centro de seu mundo". "Não é perigoso, não é representa um risco, não está se escondendo, não tem antecedentes criminais, não há razão para manter sua detenção", insistiu Copeland.

Embora os governos anteriores tenham privilegiado a expulsão de imigrantes que cometeram crimes graves, o governo Trump eliminou essas prioridades e procura deportar até mesmo aqueles que cometeram crimes menores, de trânsito ou, por exemplo, que deixaram o visto vencer.

As prisões para deportação aumentaram 27% no primeiro semestre do ano fiscal de 2018 em relação ao mesmo período do ano anterior (79.286 prisões), de acordo com a polícia migratória (ICE).

O ICE aumentou suas ofensivas: depois de duas grandes em uma fábrica de processamento de carne no Tennessee e outra em 98 lojas 7-Eleven em todo o país, uma realizada em 6 de junho em uma empresa de jardinagem em Ohio empregou 200 agentes e helicópteros para deter mais de 100 imigrantes.

Dezenas de filhos de detidos ficaram presas em creches ou com babás, segundo relataram ativistas nas redes sociais.

O ICE adotou a polêmica decisão de invadir os tribunais para prender imigrantes, um lugar anteriormente considerado protegido, como igrejas, escolas e hospitais.

- "Devastador" -

Para Sarah Pierce, analista do MPI, "ter um pai sem documentos é extremamente estressante para as crianças, especialmente no atual ambiente político".

A deportação de um pai "pode ser economicamente devastadora para uma família, mas também psicologicamente", adverte.

Um estudo de 2016 conduzido pela MPI aponta que os filhos de pais em situação irregular têm menos educação pré-escolar, falam um inglês pior, são mais pobres e têm um progresso sócio-econômico inferior em comparação com a média de outras crianças americanas.

Embora o presidente Barack Obama tenha sido apelidado de "deportador chefe" por expulsar mais de dois milhões de imigrantes sem documentos durante seu governo, "a separação de famílias era uma exceção, e agora é regra", ressaltou à AFP Megan McKenna, porta-voz da KIND, uma ONG que presta assistência jurídica gratuita a crianças imigrantes.

O governo Trump decidiu em maio começar a processar criminalmente todos os imigrantes que entrarem no país sem documentos.

Isto implica que quando um estrangeiro chega com seus filhos e sem documentos na fronteira ou num porto de entrada, ele é detido e separado de seus filhos, às vezes por meses.


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