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Estado de Minas

Ritmo das reformas do presidente Macron esgota deputados franceses


postado em 06/06/2018 16:36

O ritmo das reformas imposto pelo presidente francês, Emmanuel Macron, esgota os deputados, que quase não têm fins de semana livres, trabalham 80 horas por semana ou devem votar textos de madrugada.

Disposto a transformar o país rapidamente, Macron lançou uma miríade de reformas desde que foi eleito, em maio de 2017, convencido de que é preciso fazê-las no início de seu mandato.

Os projetos de lei se sucederam em ritmo desenfreado, e afetam a legislação trabalhista, o sistema fiscal, a educação, a reforma ferroviária, a agricultura, a Justiça e a habitação, entre muitos outros setores.

Esta cadência infernal é integralmente assumida pelo Executivo: "Não haverá pausa", afirmou na semana passada o primeiro-ministro, Edouard Philippe.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) comemora abertamente. Ao elevar, na segunda-feira, a França à posição de "chefe de fileiras" das reformas na Europa, o organismo incentiva Macron a seguir por este caminho.

Mas, nos bancos do Parlamento, os deputados encarregados de votar esta lei estão à beira do esgotamento.

Na terça-feira, o próprio presidente da Assembleia Nacional, François de Rugy - um aliado de Macron - emitiu o alerta.

"Trabalhamos nas últimas semanas 80 horas semanais. Nos reunimos por 17 dias consecutivos. Não é possível. Não é o funcionamento normal de uma Assembleia. Assim não se pode fazer trabalho legislativo, não se pode fazer boas leis", lamentou.

Mas De Rugy foi duramente atacado na semana passada pelos deputados da esquerda radical, que o acusaram de "organizar a sabotagem do Parlamento", transformado-o em uma mera câmara que se submete aos desejos do Executivo. O partido de Macron, A República em Marcha (LREM, na sigla em francês), tem ampla maioria na Câmara baixa.

- Saúde em risco -

Os demais partidos também se queixam. "Não queremos ser chorões", afirmou na terça-feira o líder dos deputados Os Republicanos (LR, direita), Christian Jacob. Mas "esta não é uma boa forma de legislar", acrescentou, e denunciou uma "ridícula competição interna" entre deputados do LREM "que apresentam incontáveis emendas, as defendem para ter a resposta do governo, e depois as retiram".

Não são só os deputados que se queixam, mas também os colaboradores parlamentares, que lamentam suas condições de trabalho, pois temem "consequências sobre a saúde", ou que "a lei seja mal feita".

"Embora a flexibilidade de horários seja uma característica da nossa profissão, não se deve transformar em algo habitual o trabalho aos fins de semana", advertiu a Associação Francesa de Colaboradores parlamentares.

O cansaço parece ter chegado, inclusive, aos serviços do primeiro-ministro. Segundo vários meios, pelo menos 14 secretários e quatro conselheiros deixaram seus cargos nos últimos 12 meses em Matignon, sede da chefia de governo.

Para Christophe Castaner, principal dirigente do partido governista LREM e secretário de Estado encarregado de relações com o Parlamento, "há momentos na ação nos quais é preciso ir depressa". Os franceses "não acreditam que se esteja fazendo demais", afirma, embora assegure que no "mês de agosto certamente não se vai trabalhar".

No ano passado, alguns já tinham se queixado de que o trabalho invadia demais as férias de verão, que caem em agosto no hemisfério norte.

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