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Estado de Minas

Jardins para além da atmosfera, o novo desafio da exploração espacial


postado em 11/05/2018 18:30

Não é fácil criar plantas no espaço. Sem gravidade, as sementes flutuam, a água se aglutina em gotículas, e a luz artificial e o ar precisam ser bem regulados para reproduzir o sol e o vento. No entanto, para a Nasa, ter jardins no cosmos é crucial para sua corrida espacial.

Os futuros exploradores espaciais terão que se alimentar durante suas missões de vários meses, às vezes anos, para a Lua ou Marte, e em produtos liofilizados alguns nutrientes essenciais, como as vitaminas C e K, desaparecem com o tempo.

Se os astronautas se privam desses componentes, aumenta o risco de que desenvolvam infecções, câncer, doenças cardíacas ou de ter má circulação sanguínea.

Diante deste panorama, a agência espacial americana recorreu a botânicos e jardineiros, em sua maioria jovens estudantes, para fazer alguns experimentos.

"Há dezenas de milhares de plantas comestíveis na Terra que poderiam ser úteis, mas não é fácil saber quais são as melhores para produzir alimentos destinados aos astronautas", explica Carl Lewis, diretor do Jardim Botânico de Fairchild, na Flórida, que participa das pesquisas. "Aqui é onde entramos em jogo", acrescenta.

Este jardim botânico de Miami identificou 106 variedades de plantas que poderiam reagir bem ao espaço, como o repolho e a alface, e se associou com mais de 15.000 alunos de 150 estabelecimentos escolares que cultivam plantas sob as mesmas condições que no espaço exterior.

O projeto, de quatro anos de duração e financiado por uma subvenção da Nasa de 1,24 milhão de dólares, já começa a gerar os primeiros resultados.

- Está bem cometer erros -

Utilizando bandejas equipadas com lâmpadas similares às utilizadas no espaço, os alunos cuidam das plantas, recolhem e anotam vários dados sobre sua evolução e transmitem todas essas informações à Nasa.

"Não usamos o material clássico de jardinagem", explica Ghays Campo, estudante de 17 anos, cuja turma é responsável por uma alface vermelha. "Temos instalações de alta tecnologia".

No entanto, a experiência não está isenta de certas dificuldades: às vezes as plantas são regadas em excesso, a temperatura das salas varia de uma para outra e os cultivos ficam desatendidos durante as férias escolares.

Na turma de Ghays Campo a alface ressecou e, embora os alunos não tenham podido prová-la, transmitiram essas informações à Nasa.

Esse tipo de desventuras contribuem de forma inesperada com o programa: "Se uma planta reage bem com todas estas variantes, é muito provável que também reaja bem no espaço", explica à AFP Gioia Massa, especialista em botânica da agência espacial.

"Os alunos aprendem que está bem cometer erros", indica JoLynne Woodmanssee, professora do colégio BIOTech de Miami.

- Alface made in cosmos -

Os astronautas que vivem a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS), na órbita da Terra a 400 km de altitude, também viveram vários fracassos em termos de jardinagem espacial.

A primeira câmara portátil para cultivar no espaço, equipada com lâmpadas LED e batizada Veggie, é testada desde 2014 na ISS. No início, uma parte das alfaces não conseguiu germinar e o resto sucumbiu à seca.

No entanto, os astronautas perseveraram, e em 2015 puderam degustar a primeira folha de salada cultivada no espaço.

Agora a estação dispõe de duas câmeras Veggie e de uma terceira chamada Advanced Plant Habitat.

A colheita é muito esporádica e consiste em apenas um ou duas folhas para cada astronauta, mas vale a pena, disse um deles, Ricky Arnold, em uma ligação de vídeo com o colégio Fairchild em abril.

"A textura dos alimentos, sejam quais forem, é muito similar", disse sobre os liofilizados. Mas "quando você pode colher sua própria alface, o simples fato de degustar uma textura diferente representa uma distração muito agradável diante do menu padrão".

Está previsto que muitas das verduras com que os alunos estão fazendo experimentos sejam enviadas à ISS nos próximos meses, especialmente uma variedade de alface e um minirrepolho. No ano que vem, talvez os tomates possam fazer parte do cardápio.

Os especialistas destacam, além disso, uma nova dimensão do projeto de jardinagem espacial: "As vantagens psicológicas podem ser importantes para os astronautas", estima Trent Smith, pesquisador da Nasa.

Vários astronautas afirmaram, por exemplo, se sentir reconfortados cultivando plantas porque isso os ajuda a manter a conexão com a Terra.

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