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Estado de Minas

Vidas em jogo enquanto a ONU debate financiamento climático


postado em 09/05/2018 18:06

Por trás da disputa nas negociações climáticas da ONU sobre a ajuda financeira aos países pobres que lidam com condições meteorológicas cada vez mais extremas, projetos do mundo real que podem salvar meios de subsistência - e às vezes vidas - aguardam na fila, à espera de aprovação e dinheiro.

Os países ricos estão abrindo lentamente as torneiras para ajudar a reforçar os litorais que estão afundando diante da elevação do nível do mar, transformar a agricultura em cultivos resistentes à seca ou mudar o transporte público a gasolina para eletricidade alimentada pelo sol e pelo vento.

Dezenas de bilhões de dólares - o número verdadeiro é contestado - de fontes públicas e privadas estão fluindo a cada ano.

Mas isso fica bastante aquém dos US$ 100 bilhões por ano prometidos a partir de 2020, e é insignificante em comparação com os trilhões que os especialistas concordam que serão necessários para fazer a transição global para uma economia verde.

O tratado climático de 197 países de Paris pretende limitar o aumento da temperatura "bem abaixo" de dois graus Celsius, e a pressão está aumentando para deixar a marca ainda mais baixo, a 1,5º C.

Mas isso pode ser uma missão impossível, segundo alguns cientistas. O termômetro global já subiu 1 grau Celsius, e até a meta de 2ºC é vista como extremamente ambiciosa.

Em qualquer cenário, no entanto, regiões pobres altamente expostas ao risco climático estão enfrentando impactos da poluição por carbono, algumas vezes agravada por más escolhas.

- Restaurando uma zona úmida -

No sudoeste e no leste de Uganda, por exemplo, vastas zonas úmidas drenadas para dar lugar a plantações tornaram-se estéreis e já não amortecem a água da chuva que desce pelas encostas do Monte Elgon durante as tempestades intensificadas pelas mudanças climáticas, disse Benjamin Larroquette, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

Para os agricultores de subsistência, que nunca sabem quando uma inundação vai arrastar suas colheitas, "é uma roleta russa", disse.

Um projeto de US$ 44,3 milhões administrado por Larroquette restaurará cerca de 60.000 hectares de áreas úmidas nos próximos oito anos e reconectará as redes de córregos e riachos da área.

Um milhão de pessoas serão beneficiadas, e aprenderão também a montar fazendas de peixes e colheitas compatíveis com as zonas úmidas.

Mais da metade do dinheiro vem dos US$ 10 bilhões do Fundo Verde para o Clima (GCF), que apoia projetos que ajudam países em desenvolvimento a se adaptarem às mudanças climáticas e a reduzirem sua pegada de carbono.

O GCF é uma peça de um quebra-cabeça de financiamento climático muito maior que divide há muito tempo países ricos e em desenvolvimento nas negociações da ONU, atualmente encarregadas de elaborar o "manual operacional" do Acordo de Paris antes do final do ano.

Muitas das disputas se concentram nas finanças. As nações beneficiárias buscam compromissos claros para obter mais recursos de fontes públicas, enquanto as nações doadoras privilegiam empréstimos e um papel maior do setor privado.

- Proteger-se de um furacão com guarda-chuva -

Mas todos concordam que o que está na mesa agora - no longo prazo - não é suficiente.

"Estamos falando em milhões e bilhões de dólares, quando deveríamos estar falando em trilhões", afirmou a chefe do clima da ONU, Patricia Espinosa, a delegados de mais de 190 nações reunidos em Bonn até quinta-feira.

"Deixe-me colocar desta forma: tentar abordar a mudança climática nos níveis atuais de financiamento é como entrar em um furacão de categoria 5 protegido apenas por um guarda-chuva".

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente estima que só a adaptação climática exigirá de 140 a 300 bilhões de dólares de gastos por ano até 2030.

Em Bonn, a questão financeira está atrasando o progresso. Os negociadores não conseguem sequer concordar sobre quanto está sendo gasto atualmente.

Dos US$ 48 bilhões em financiamento climático ostensivamente desembolsados em 2015 e 2016, apenas entre US$ 16 e 21 bilhões - menos da metade - são realmente "financiamentos públicos líquidos e específicos para o clima", segundo um relatório da Oxfam International.

Os números oficiais são inflados ao superestimar o componente climático de projetos de desenvolvimento de base ampla, e ao contar o valor aparente dos empréstimos sem levar em consideração os pagamentos de juros, disse a ONG.

O GCF provavelmente desembolsará mais de 60% de suas reservas iniciais antes de uma cúpula climática da ONU na Polônia em dezembro, desencadeando uma campanha para reabastecer o fundo. Mas ainda não se sabe como - e quão rapidamente - isso se desdobrará.

"Um novo e ousado compromisso com o GCF seria um grande construtor de confiança para os países em desenvolvimento", disse Tracy Carty, especialista em finanças da Oxfam.

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