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Estado de Minas

Saída dos EUA de acordo desenha mudança de regime no Irã


postado em 09/05/2018 17:24

A decisão do presidente Donald Trump de retirar os Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã marca o fim de anos de diplomacia cuidadosa e leva o enfrentamento com Teerã a um novo território perigoso.

A decisão causou consternação nos países europeus aliados e se deu em um momento em que Londres, Paris e Berlim negociavam um acordo mais rígido para apaziguar Trump.

Em Washington, inclusive os críticos mais severos do acordo de 2015 ficaram paralisados enquanto digeriam a notícia, e se perguntavam qual nova escalada viria depois.

Funcionários de alto escalão insistiam que Washington ainda está convencido de trabalhar junto com seus aliados humilhados para evitar que o Irã desenvolva uma bomba atômica.

Mas é difícil encaixar a busca de Trump por um "novo acordo duradouro" com seu rechaço ao "decadente e podre" acordo original.

O líder americano está cada vez mais cercado por "falcões", como seu novo conselheiro de Segurança Nacional, John Bolton, e de seu secretário de Estado, Mike Pompeo, cujo posicionamento público é que com a pressão econômica o Irã pode fazer mais concessões do que as aceitas a contragosto no acordo de 2015.

Mas a decisão de Trump abriu uma brecha com seus aliados europeus, enfraquecendo a frente comum contra o Irã, e tampouco fica claro se Teerã aceitaria um acordo mais duro.

Existem vozes que asseguram que a tática de "pressão máxima" de Trump não tem como fim um acordo mais duro, e sim esmagar a fraca economia do Irã para derrubar o seu regime.

"Temos um presidente que é duro", afirmou o advogado pessoal de Trump, Rudy Giuliani, a um grupo de exilados iranianos, e acrescentou: "temos um presidente que está tão comprometido com uma mudança de regime quanto nós estamos".

Mas a revolução iraniana iniciada há 38 anos não virá abaixo sem lutas, e o risco de uma guerra regional, ou de uma nova corrida armamentista nuclear, aumentam com as palavras outrora tabu: mudança de regime.

- Ruína do Iraque -

Celia Belin, ex-conselheira de política para o Ministério das Relações Exteriores da França e professora visitante no Brookings Institution de Washington, disse que a Europa não voltará a impor as suas sanções contra o Irã.

"Os europeus estão lentamente descobrindo a doutrina de Trump da 'batata quente'", explicou, descrevendo o hábito do presidente americano de provocar batalhas diplomáticas desnecessárias para que os outros as resolvam.

"No entanto, não está claro se a administração Trump busca realmente um 'acordo real', ou se ele e seu governo apontam para uma mudança de regime", advertiu.

"Tenho certeza que ele quer" uma mudança de regime no Irã, afirmou, referindo-se a Trump, Rob Malley, ex-assessor do presidente Barack Obama, um dos arquitetos do acordo de 2015.

"Não pretendo ser um especialista em Trump", disse à AFP Malley, chefe de resolução de conflitos do think tank International Crisis Group, "mas tenho certeza de que as pessoas que estão ao seu lado, como as duas pessoas que acaba de contratar e promover, Bolton e Pompeo, nunca esconderam que, segundo eles, a única maneira de encerrar esta questão é com uma mudança de regime e uma ação militar".

Essa decisão tem uma forte carga histórica em Washington, onde a campanha de 2003 para expulsar o então ditador do Iraque Saddam Hussein e mudar o regime do país é amplamente considerada um erro.

Acredita-se que a queda de Saddam e os subsequentes movimentos insurgentes no Iraque tenham favorecido a disseminação de grupos extremistas e tenham deixado uma porta aberta para uma maior influência do Irã no país.

O próprio Trump disse ser contra a guerra, mas veteranos do governo de George W. Bush, principalmente o recém-promovido Bolton, a defenderam e, em seus ataques contra o Irã, alguns vêem uma tentativa de reescrever a história.

Para esses "falcões" conservadores, a crescente influência de Teerã na região é uma consequência da decisão de Obama de diminuir as sanções, e não da destruição de seu inimigo em Bagdá, liderada por Bush.

Com Bolton no Salão Oval, essas vozes estão cada vez mais fortes e, com elas, aumentam as chances de um novo e mortal conflito.

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