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Estado de Minas

Crise econômica paralisa universidades venezuelanas


postado em 11/04/2018 17:36

Professores que não têm dinheiro para o ônibus que os leva às aulas, alunos que faltam porque precisam ficar na fila para comprar comida: a crise econômica está paralisando as universidade públicas venezuelanas.

Desde março, a Universidade de Zulia (LUZ), com sede em Maracaibo (noroeste), reduziu a jornada para três dias por semana porque alunos, professores e funcionários têm dificuldades de comparecer.

"Trabalhamos todos os dias, mas nos organizamos para que cada professor, aluno e funcionário venha três vezes por semana", disse à AFP Judith Aular, reitora encarregada da LUZ. Aulas on-line completam a carga horária.

Assim, tentam deter a crescente "fuga" de professores e estudantes, muitos ao exterior, diante da piora socioeconômica, segundo Aular.

"Permitimos aos professores buscar outra fonte de renda. Com o que ganham não podem manter a família", acrescentou.

Desde 2016, na Universidade do Oriente, em Cumaná (leste), saíram 25% dos professores e 40% dos alunos, assegurou a reitora Milena Bravo.

Os professores mais experientes, que trabalham em tempo integral, ganham 3,9 milhões de bolívares por mês (10 dólares na cotação do mercado negro), que dão para cinco quilos de carne.

O "dólar negro" é referência de muitos produtos importados por conta da escassez de divisas, que o Estado monopoliza.

Danilo Fuenmayor, que recentemente terminou seus estudos de Economia na LUZ, se diz aliviado de que ao final só tivesse que ir três dias. Precisava caminhar três quilômetros porque não tinha dinheiro para o ônibus.

"Da minha faculdade saíram 15 professores, o carro da minha orientadora quebrou e ela não conseguiu consertar. O transporte não funciona", enumerou Fuenmayor, de 23 anos, à AFP.

- Orçamento devorado -

Os venezuelanos lidam com a falta de dinheiro porque a impressão de cédulas foi retardada diante da hiperinflação, que segundo o FMI irá superar os 13.000% este ano.

Em junho entrarão em circulação novas denominações com três zeros a menos, que substituirão as emitidas no fim de 2016.

Outra faceta da crise é a escassez de alimentos, remédios e bens básicos, como peças de veículos, o que, de acordo com o sindicato do transporte público, paralisa 80% da frota.

Para acompanhar sua mãe na compra de alimentos, em filas que duram horas, Daniela García, estudante de Engenharia em Caracas, falta às aulas várias vezes.

Os professores também precisam fazer milagre para se abastecerem, às custas de deixarem seus carros parados.

"Para um professor é uma odisseia se transportar (...) porque não pode consertar seu carro e gasta o salário em comida", comentou com a AFP Amalia Belmonte, secretária-geral da Universidade Central da Venezuela (UCV).

A UCV, principal do país com quase três séculos e 43 mil alunos, também avalia reduzir a jornada para três dias, indicou Belmonte.

Seu maior problema é de orçamento, pois só receberá 33% do solicitado este ano.

"A maior parte é para salários (...) O dinheiro para pesquisas alcança o suficiente para comprar cinco pneus", sustentou o diretor.

Conta que tem assinado semanalmente até 3.000 boletins para "egressos" do país, contra 100 de anos recentes.

O presidente Nicolás Maduro destaca entre suas conquistas o aumento da matrícula gratuita com a criação de 40 universidades.

- Às escuras -

A insegurança também atinge a UCV: no meio da tarde já não restam funcionários, por medo de serem assaltados.

"Os jovens vão correndo antes que anoiteça: não há luz e podem ser roubados", contou à AFP a professora Gabriela Rojas.

Em estados como Táchira (oeste), a falta de gasolina se soma a muitos problemas, aponta Renny Cárdenas, coordenador da Escola de Medicina na Universidade de Los Andes.

Nesse e em outros cinco estados, o governo também raciona a energia desde março por uma diminuição no nível nas represas. Sem luz, não há aula.

À espera de sua formatura, Fuenmayor quer emigrar. "Me roubaram várias vezes na universidade, ganho um salário mínimo e isso só dá para um quilo de queijo", lamenta.

Enquanto isso, a professora Rojas, que tem usado o pátio porque não há quem abra as salas, continuará dando suas duas aulas semanais, com cujo pagamento poderá comprar um café.

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