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Estado de Minas

Brasil mergulhado na saga Lula enfrenta um futuro imprevisível


postado em 10/04/2018 11:12

A prisão do ex-presidente Lula aprofundou a polarização no Brasil, que em plena crise política, moral e institucional, vislumbra um futuro totalmente imprevisível.

Multidões revoltadas ou exultantes, insultos a juízes, estradas bloqueadas por manifestantes, polícia usando gases lacrimogêneos, os brasileiros acompanharam neste fim de semana uma espécie de telenovela que acabou com Luiz Inácio Lula da Silva atrás das grades.

"O clima de polarização e radicalização preocupa a todos", declarou na semana passada o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann.

E agora que Lula está preso, o país está ainda mais dividido faltando seis meses para uma eleição na qual ele é favorito.

"O Brasil atravessa uma crise democrática em um sentido amplo, que revela um sistema político e judicial sem alento e submetido a extremas contradições e tensões", explica Christophe Ventura, pesquisador do Instituto de Relações Internacionais e Estratégia (Iris), da França.

Depois do impeachment de Dilma Rousseff em 2016, a prisão do líder da esquerda, de 72 anos, complica uma eleição que é considerada a mais incerta da história do país.

Condenado a 12 anos de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro, será que Lula pode ser candidato, mesmo preso? Poderá fazer campanha? Os juristas se perdem em conjecturas.

- "Sequência volátil" -

Mas sua provável inelegibilidade obriga a todos os partidos políticos a revisar sua estratégia.

O PT assegura que não tem um Plano B e confirmou na segunda-feira a candidatura de Lula. No entanto, são muitos os debates e divisões internas.

"Lula preso simboliza o fim de um projeto, de uma era", acredita André Cesar, da consultora Hold.

Mesmo que adulem o "guerreiro do povo" ou repudiem "o maior ladrão da história do Brasil", os brasileiros não sabem dizer se esta eleição é válida se o atual favorito das pesquisas estiver prisão e não poder se eleger.

"O país já passou por outros momentos instáveis e doidos, mas isso é inédito. Nunca no Brasil um ex-presidente foi preso por uma condenação tão controvertida", afirma Ventura.

Entretanto, o Supremo Tribunal Federal - também muito dividido - poderá decidir pela libertação de Lula nesta quarta-feira, em uma nova reviravolta teatral que abrirá "um capítulo totalmente incerto e volátil", acredita.

Três décadas depois do fim do regime militar, o reaparecimento no debate político de chefes do Exército causou polêmica. Em um tuíte recente, o general Eduardo Villas Boas implicitamente apoiou a prisão de Lula.

Os receios em relação às Forças Armadas aumentaram desde que o presidente Michel Temer decretou uma intervenção militar tão controvertida quanto, por enquanto, ineficaz contra a violência que assola o estado do Rio de Janeiro.

Um mês depois, a execução da vereadora e ativista Marielle Franco continua impune, apesar da indignação que seu assassinato causou dentro e fora do Brasil.

Paralelo a isso, a mega-investigação anticorrupção Lava Jato, que levou Lula para a prisão, continua fazendo o país tremer em seu quinto ano de atuação. Mais de 100 políticos de 14 partidos estão sob investigação.

Os procuradores e juízes anticorrupção, começando por Sérgio Moro, foram mais longe que o previsto. Até o presidente Temer foi acusado de corrupção e organização criminosa, apesar de conseguir salvar a pele em 2017 com o apoio do Congresso.

E enquanto 13 milhões de brasileiros ainda estão desempregados, "a combinação de recessão econômica e exposição quase pornográfica da corrupção é explosiva", resume um colunista do jornal A Folha de São Paulo.

- "Tudo pode acontecer" -

Revoltados com a situação, muitos brasileiros parecem dispostos a abraçar o deputado de extrema-direita Jair Bolsonaro, um nostálgico da ditadura e que tem cerca de 18% das intenções de votos, atrás de Lula.

Mas a saga Lula ainda não terminou.

Para seus partidários, ele não passa de um "preso político".

Para seus detratores, é um homem que sabe como manipular seus seguidores e as instituições brasileiras.

Quando Lula ainda estava livre, sua caravana pré-campanha pelo sul do país foi marcada por lançamento de ovos, pedras e até tiros.

"Daqui para frente tudo pode acontecer", conclui Ventura.

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