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Estado de Minas

Correa, da derrota à investigação judicial no Equador


postado em 05/02/2018 19:18

O ex-presidente equatoriano Rafael Correa depôs na Justiça em um suposto caso de corrupção nesta segunda-feira (5), horas depois de viver pela primeira vez uma derrota eleitoral. O episódio tem ar de conclusão para quem outrora foi o homem mais poderoso do Equador.

No domingo, os equatorianos bloquearam mediante um referendo a possibilidade de Correa retornar ao poder em 2021, e enterraram algumas das reformas promovidas pelo líder de esquerda de 54 anos.

Ainda com a ferida aberta, nesta segunda-feira ele depôs ao Ministério Público, em Guayaquil, sobre um suposto prejuízo do Estado na venda de petróleo à China e à Tailândia. Por ora, a investigação preliminar não levou a acusações contra ele.

O ex-governante, que, em dez anos no poder (2007-2017), venceu 14 desafios eleitorais, vê nesta convocação a manobra final para sair do meio. No domingo, os equatorianos também decretaram a "morte política" para os condenados por corrupção.

"Não têm do que nos acusar, mas estão desesperados. Querem prender Correa por que o odeiam, judicializar a política, para que não possa sair do país", disse o ex-mandatário à imprensa após depor por várias horas.

O cientista político Simón Pachano garantiu à AFP que a aprovação no referendo, com 74% dos votos, da pergunta sobre corrupção, "significa morte civil, e isso pode excluir (Correa) de toda a política se for condenado, como parece que vai acontecer".

Após se desfiliar do partido que fundou em uma disputa de poder com o presidente Lenín Moreno, Correa disse à AFP há duas semanas que apoiará seus seguidores para criar um novo movimento político, mas não vai liderá-lo.

Nesta segunda-feira reforçou que não participará "de nada" que envolva política.

- Volta à Bélgica -

Correa integrou a triunfante onda de esquerda que sacudiu a América Latina. Ao lado do falecido Hugo Chávez, liderou um governo muito popular, que reformou o Estado, desafiou os Estados Unidos e colocou o setor mais rico e dos veículos privados de comunicação entre a cruz e a espada.

Ele também foi implacável com seus adversários, e muitos lhe atribuem uma personalidade autoritária.

Até menos de um ano atrás, ninguém acreditaria que o seu aparente fracasso poderia vir das mãos de seu ex-vice-presidente e agora inimigo político: o presidente Lenín Moreno, promotor da consulta que enterrou grande parte do legado correísta.

Na terça-feira, o ex-presidente retornará à Bélgica, para onde se mudou com sua família depois de deixar o poder em maio passado.

Para o analista Santiago Basabe, Correa está "ferido" politicamente, mas ainda "não devemos perdê-lo de vista" porque ele mantém um espaço "transcendente" entre o eleitorado.

- Final? -

Na véspera da volta à Bélgica, Correa se defendeu das suspeitas em torno da gestão das vendas antecipadas de petróleo, uma estratégia que permitiu ao Estado receber bilhões de dólares em troca da entrega posterior de petróleo, principalmente para a China, que se tornou o maior credor do país.

"Podem revisar o que quiserem, eu não sou corrupto", garantiu o ex-chefe de Estado, que garante ter feito tudo dentro da lei.

No entanto, o jornalista e político Fernando Villavicencio denunciou supostas irregularidades que geraram prejuízos de 2,2 bilhões de dólares para o Estado.

Não é possível prever o que acontecerá com Correa num futuro próximo.

No referendo, os equatorianos disseram "sim" ao novo presidente, com uma votação superior a 63%. Mesmo assim, Correa considerou "uma grande vitória" os 36% de votos que ele conseguiu no domingo, liderando a campanha pelo "não".

Pachano, professor da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), disse que esta porcentagem "dará a Rafael Correa uma forte presença política no país", embora em teoria ele não consiga voltar ao poder no curto prazo.

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