Os militares americanos que serviram no Afeganistão foram alertados de que "nada poderia ser feito" sobre o abuso sexual a menores por parte das forças de segurança locais, segundo um relatório do governo divulgado nesta quinta-feira.
O escritório do Inspetor Geral do Departamento de Defesa revisou as diretrizes às tropas no Afeganistão, após a publicação, em 2015, de histórias sobre pedofilia entre a polícia e o exército afegãos.
Um dos temas centrais são os "bacha bazi", uma tradição local disseminada que consiste em usar meninos como escravos sexuais.
O inspetor-geral entrevistou várias tropas americanas, que afirmaram que seus comandantes encolheram os ombros quando eles relataram suas preocupações sobre possíveis abusos.
"As pessoas que entrevistamos disseram que haviam lhes dito, de maneira informal, que nada poderia ser feito sobre os abusos sexuais infantis por causa do status do Afeganistão como país soberano, porque isso não era uma questão prioritária para o comando, ou porque era melhor deixar que a polícia local lidasse com isso", afirma o relatório.
Uma pessoa interrogada afirmou que estava ciente de que um comandante afegão se encontrava com meninos "por prazer".
Os investigadores identificaram 16 supostos casos de abusos sexuais a menores que envolviam membros do governo afegão entre 2010 e 2016, mas a falta de diretrizes para denunciar torna impossível saber se este é o número total de casos.
O inspetor-geral descobriu que, embora o Pentágono não tivesse nenhuma política que desencorajasse abertamente o pessoal de relatar incidentes de abuso sexual infantil, o treinamento de conscientização cultural identificava o abuso sexual infantil como uma "prática culturalmente aceita" no Afeganistão.
Em setembro de 2015, o New York Times informou que as tropas dos EUA no Afeganistão foram instruídas por seus superiores a ignorar casos de policiais afegãos ou comandantes que abusavam sexualmente de adolescentes, mesmo que ocorressem em bases militares.
No ano passado, a AFP relatou como os talibãs exploram os "bacha bazi" para se infiltrar nas fileiras das forças de segurança afegãs.
Perguntada sobre o relatório do Inspetor-Geral, a porta-voz do Pentágono, Dana White, disse que as tropas são obrigadas a denunciar suspeitas de abusos.
"Há um sistema muito concreto no qual elas fazem isso", disse.
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