Jornal Estado de Minas

Trégua segue em vigor pelo segundo dia na Síria

As frentes de combate na Síria viviam neste sábado seu segundo dia de calma, apesar de algumas hostilidades, enquanto na ONU, o Conselho de Segurança aprovou a iniciativa russo-turca de um cessar-fogo, abrindo a via para negociações com vistas a por fim ao conflito.

A resolução apoiando o acordo de cessar-fogo proposto por Ancara e Moscou foi aprovada por unanimidade no Conselho de Segurança, e embora preveja o início das negociações, não entrou em detalhes técnicos.

O texto de compromisso, aprovado após a realização de consultas a portas fechadas, diz que o Conselho de Segurança "acolhe com satisfação e apoia os esforços" para a paz feitos por Rússia e Turquia e que "toma nota" do acordo alcançado em 29 de dezembro.

O cessar-fogo, do qual estão excluídos os grupos extremistas Estado Islâmico (EI) e Fateh al-Sham, deve ser o prelúdio das negociações de paz previstas para o fim de janeiro em Astana, capital do Cazaquistão, auspiciadas por Moscou e Teerã, aliados do regime, e Ancara, que apoia os rebeldes.

Pelo segundo dia consecutivo, "a calma reina na maioria das regiões sírias" no âmbito da aplicação de uma trégua, a primeira desde setembro, que entrou em vigor na quinta-feira à meia-noite, informou Rami Abdel Rahman, diretor do Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH), ONG sediada em Londres.

"Ocorrem apenas alguns confrontos e bombardeios de artilharia do regime na região de Wadi Barada, perto de Damasco, e na cidade de Deraa (sul)", disse à AFP o responsável.

A aviação do regime realizou dez ataques aéreos contra Wadi Barada, segundo o OSDH.

Wadi Barada é uma das principais áreas de abastecimento de água potável para os quatro milhões de habitantes da capital síria e seus arredores. O governo acusa os rebeldes de terem "contaminado com diesel" a água que chega a Damasco.

Aproveitando o cessar-fogo, as crianças puderam voltar à escola na província de Idleb, controlada pelo Fatah al-Sham (ex-Frente al-Nosra, braço da Al-Qaeda na Síria), um grupo considerado "terrorista" por Washington e Moscou.

- Aliança complicada -

Desde o início da trégua, dois civis morreram, um deles vítima de um franco-atirador em Duma, perto de Damasco, e o outro em um bombardeio perto de Wadi Barada, onde os confrontos persistem há uma semana entre o regime e os rebeldes aliados do Fateh al-Sham.

Como nas tréguas anteriores, que fracassaram poucos dias depois, a aliança de insurgentes com o Fateh al-Sham complica a implementação do cessar-fogo.

Muito debilitados, estes grupos rebeldes não podem se distanciar da formação extremista, que conta com melhores equipamentos e tem um papel militar chave na batalha contra o regime. Nas regiões sob o seu controle, os rebeldes são seus aliados.

"Não se deve excluir nenhum grupo em Idleb, caso contrário a trégua fracassará", afirmou Mohamad, de 28 anos, que espera que este conflito, que já deixou mais de 310.000 mortos e milhões de refugiados desde 2011, seja resolvido.

O EI, por sua vez, atua sozinho nas regiões que controla, no norte da Síria, e continua sendo o alvo dos bombardeios russos, americanos, turcos e sírios.

De acordo com o Pentágono, o seu líder, Abu Bakr al Baghdadi, ainda está vivo, apesar dos esforços da coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos para eliminá-lo.

- 'Diálogo produtivo' -

Pela primeira vez desde o início do conflito, os Estados Unidos, que apoiam a oposição, foram excluídos das negociações de cessar-fogo.

Para o emissário da ONU na Síria, Staffan de Mistura, este acordo "abrirá o caminho para um diálogo produtivo", mas reiterou que pretende que as negociações através da ONU persistam no ano que vem.

Em uma entrevista publicada neste sábado, De Mistura declarou que a resolução da ONU que prevê uma transição política na Síria ainda está sobre a mesa.

"Temos agora diante de nós outra situação: uma negociação entre o regime de Assad e os rebeldes", disse ao jornal italiano Corriere della Sera.

As negociações previstas para o fim de janeiro no Cazaquistão devem ocorrer antes das negociações inter-sírias auspiciadas pela ONU, previstas para 8 de fevereiro, em Genebra.

O conflito na Síria, desencadeado em 2011 pela sangrenta repressão das manifestações pacíficas pró-democracia no país, se transformou em uma guerra complexa que envolve muitas potências regionais e internacionais.

Apenas em 2016, cerca de 60.000 pessoas perderam a vida em combates e bombardeios, 13.617 delas civis, segundo um balanço do OSDH.

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