Chapecó aguardava na madrugada deste sábado os corpos dos jogadores que haviam enchido a cidade de esperança com uma campanha espetacular na Copa Sul-Americana, que acabou tragicamente em um acidente aéreo nas montanhas de Medellín.
Três aviões da Força Aérea Brasileira (FAB) pousarão, entre às 07H00 e 08H00 locais, com os corpos dos 51 membros da delegação do time revelação da Sul-Americana.
Com as aeronaves que partiram na tarde de sexta-feira de Medellín já em terra, começará o cortejo fúnebre pelas ruas de Chapecó até a Arena Condá, o mesmo estádio que transbordava de felicidade há dez dias.
Sob o único arco que segue em pé, o goleiro Danilo fez a defesa milagrosa no último minuto de jogo, o que permitiu à Chapecoense chegar a tão sonhada final contra o colombiano Atlético Nacional.
Sem assimilar ainda sua perda, Ilaide Padilha, mãe de Danilo, voltou nesta sexta-feira ao estádio onde seu filho de 31 anos foi tantas vezes feliz.
"A sensação é horrível, de olhar e saber que meu filho vai chegar aqui dentro de um caixão. É muito triste lembrar das defesas, não só aquela (contra o San Lorenzo), mas os pênaltis (defendeu quatro contra Independiente nas quartas) e ele correndo pelo gramado com os braços abertos, vibrando", revelou Ilaide.
- Organização da dor -
O clube estima que até 100 mil pessoas poderão chegar para o velório, e adverte que a grande maioria não terá acesso à Arena Condá. Foram instalados dois telões nos arredores do estádio para que a multidão possa acompanhar a cerimônia.
Segundo os organizadores, os torcedores que tiverem acesso aos 19 mil lugares nas arquibancadas do estádio não poderão descer ao gramado para se aproximar dos caixões.
O maior desafio logístico dos 99 anos de história da catarinense Chapecó é agravado pela presença de diferentes autoridades e figuras do futebol, que irão à cidade para mostrar seu pesar diante do pior acidente aéreo do esporte mundial.
O presidente Michel Temer participará de uma cerimônia no aeroporto da cidade, informou a presidência. Também confirmaram presença o presidente da Fifa, Gianni Infantino, e Tite, o técnico da seleção brasileira.
Temendo um ato infinito sob o inclemente sol de verão, a Chapecoense descartou a opção de os torcedores terem acesso ao gramado, e planeja concluir a cerimônia em apenas duas horas, após o qual as famílias poderão viajar com seus mortos para os locais de origem. A maioria do plantel era de fora de Chapecó.
- Indignação -
Sobre o gramado da Arena Condá eram instaladas nesta sexta-feira barracas metálicas na área de um dos gols removidos, à qual terão acesso no sábado cerca de 2 mil pessoas, entre familiares, amigos das vítimas e autoridades.
Chapecó só quer agora se despedir em paz dos que foram o coração da cidade nos últimos anos. Uma equipe jovem que crescia e se atrevia a ser otimista em um Brasil maltratado pela crise.
Enquanto surgem novos detalhes sobre o acidente, e os meios de comunicação apontam para possíveis negligências, a indignação começa a se somar ao luto que domina uma cidade com fortes convicções religiosas.
"Existe esta irritação, mas ao mesmo tempo sentimos a dor da perda. Claro que todo mundo está irritado com o que aconteceu. Foi um erro (do piloto). Ele derrubou o avião da nossa Chapecoense e agora não os temos mais", disse à AFP Daniela Nunes, vendedora de 23 anos.
Segundo a principal hipótese dos investigadores, o avião se acidentou antes de chegar ao aeroporto José María Córdova de Medellín por falta de combustível.
De momento, a única luz que Chapecó encontra no caos é a solidariedade de um mundo que tem sofrido com eles.
"Recebi mensagens não só do Brasil, mas do mundo todo, em outras línguas que nem entendo, não consigo aceitar mais solicitações (de amizade) no meu Facebook para me dar apoio.