Foi quando Bill Clinton se tornou governador do Arkansas pela segunda vez, em 1983, que Hillary saiu dos bastidores para ocupar uma posição na qual daria as caras na política pela primeira vez. Não que não fosse familiarizada com o meio. Ao contrário, ela o conhecia profundamente. Casada com Bill desde 1975, Hillary articulou as três campanhas anteriores do marido, duas para procurador-geral do estado e uma para governador. Nos anos 1960, era militante em grupos republicanos e fez campanha para um candidato do partido em 1964. A virada ideológica aconteceu depois de se formar em direito na Universidade de Yale, quando se tornou uma das coordenadoras, no estado de Indiana, da campanha do democrata George McGovern à Casa Branca em 1972. McGovern, um radical de esquerda para os padrões dos EUA, foi massacrado por Richard Nixon. Um ano depois, porém, a jovem advogada assessorava a bancada democrata no Senado no processo de impeachment que levou à renúncia do presidente, em 1974.
Hoje, aos 69 anos, Hillary é um animal político tanto quanto o marido.
Leia Mais
Grupo em homenagem aos terninhos de Hillary vira fenômenoCuriosidades da campanha: da Broadway à Estação EspacialEleitores começam a ir aos locais de votação nos Estados UnidosHillary ganha em 2 de 3 pequenos territórios de New HampshireHillary Clinton vota nas presidenciais dos EUAUm casal que atua como um time
Hillary e Bill sempre formaram um time e, segundo depoimentos publicados na revista The New Yorker, em perfil da candidata, essa noção levou-a, mais de uma vez, a desconsiderar uma eventual separação por conta da infidelidade do marido. O caso com a estagiária Mônica Lewinsky, enquanto Bill ocupava a Casa Branca, ficou famoso, mas houve outros. “Isso respingou nela”, avalia David Fleischer, professor do Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Brasília (UnB).
Filha de um empresário republicano e de uma dona de casa democrata, ela flertou, durante a adolescência, com as ideias conservadoras que orientavam o pai, antes de decidir que trabalharia para o serviço público. A história da mãe, abandonada pelos pais e obrigada a trabalhar aos 14 anos, e um discurso de Martin Luther King Jr. foram responsáveis pela decisão. Em 1968, Hillary tornou-se democrata. Seis anos depois, casou-se com Bill Clinton, colega de turma em Yale, onde se formou em direito, com quem partilhava o interesse pela política. A personalidade diferente dos dois seria a liga que transformaria um em complemento do outro. Hillary é habilidosa na construção de políticas públicas, nas articulações, na política miúda.
A falta de carisma é um dos pontos que complicam a vida da candidata, que amarga índices elevados de rejeição. “Carisma certamente ajuda, mas não é essencial”, acredita Timothy Hagle, cientista político da Universidade de Iowa. “Muitos apoiadores de Clinton acreditam que ela tem a experiência necessária para ser presidente, especialmente se comparada a Trump. Além disso, há a natureza histórica da sua candidatura, como primeira mulher indicada por um dos dois grandes partidos e, possivelmente, a primeira a se tornar presidente. Provavelmente, não é um fato tão importante quanto foi o racial para Obama, em 2008, mas certamente é importante.”
A corrida ao cargo mais poderoso do mundo começou há mais de oito anos, quando Hillary perdeu para Barack Obama a candidatura democrata. Na segunda tentativa, neste ano, venceu o senador Bernie Sanders. “Os Clintons sempre foram bons em construir relações com pessoas poderosas, dentro e fora do governo. Isso deu a ela a habilidade de ter uma oposição pequena nas primárias. Sanders foi uma surpresa. Isso também a ajudou a conseguir o apoio para as eleições”, explica Hagle.
Um fantasma: a sombra do FBI
Os últimos momentos da campanha têm sido tensos para a democrata, investigada pelo FBI (polícia federal) por ter utilizado um servidor de e-mail privado enquanto era secretária de Estado, no primeiro mandato de Obama (2009-2013).
A então secretária de Estado assumiu a responsabilidade pelo incidente, que resultou na morte de mais três cidadãos americanos. “Perder esses destemidos servidores públicos na linha de frente do dever foi um golpe devastador. Como secretária, eu era a responsável pela segurança da equipe e nunca senti essa responsabilidade mais profundamente do que naquele dia. Mandar aqueles que servem à nossa nação para o caminho do perigo é uma das escolhas mais difíceis que nossa nação e nossos líderes já fizeram”, escreveu Hillary em Hard choices (Duras escolhas, em tradução livre), autobiografia publicada em 2014. As investigações foram concluídas neste ano, sem apontar irregularidades por parte da ex-secretária.
Para Robert Shapiro, especialista em mídia e opinião pública da Universidade de Columbia, os eleitores de Hillary votam por ela porque odeiam Donald Trump. No entanto, alguns aspectos da personalidade e da trajetória da candidata poderiam ser decisivos. “O que tem sido importante é a crítica relativa à ligação dela com o mercado e com Wall Street, na arrecadação de fundos para a campanha, assim como o vazamento de e-mails que mostrariam conexões entre doadores de campanha e o acesso de alguns deles ao governo, quando ela era secretária de Estado”, avalia Shapiro.
Keith Boeckelman, professor da Western Illinois University, aponta como vantagem de Hillary o longo histórico na administração pública. “Ela é vista como alguém que trabalha duro e sabe muito sobre política e governo. Para algumas pessoas, isso é algo negativo, porque é gente que está frustrada com o sistema, mas acredito que as pessoas ficam menos assustadas com o que pode acontecer, se ela se tornar presidente, do que com Trump”, diz Boeckelman.
Entre as 37 promessas de campanha listadas no site oficial da candidata estão aperfeiçoar o Obamacare, investir nos direitos das mulheres e das populações LGBT, trabalhar em um sistema de impostos mais justo, diminuir os juros sobre os empréstimos estudantis, melhorar a justiça racial e proteger os imigrantes e suas famílias.