Obama deixa de lado os grandes discursos solenes

AFP

Desde que chegou ao poder há sete anos, Barack Obama sempre se apoiou em suas qualidades inegáveis como orador para fazer avançar os peões no tabuleiro político americano.

Mas, com a aproximação da eleição presidencial e de sua partida da Casa Branca, ele parece cada vez mais disposto a abandonar esta característica tão mercante.

"Ele quer falar menos para as pessoas e falar mais com as pessoas", resumiu Jen Psaki, diretor de comunicações da Casa Branca.

O presidente dos Estados Unidos terá, sem dúvidas, a oportunidade de pronunciar mais alguns discursos solenes. Mas ao longo dos próximos 12 meses, ele pretende recorrer com mais frequência a "discussões" para transmitir sua mensagem.

Ele começou na quinta-feira em Baton Rouge, Louisiana, com um diálogo centrado em seu discurso sobre o Estado da União, proferido ao Congresso na terça à noite.

Dar espaço ao diálogo - às vezes com adversários ferozes - não é uma estratégia sem risco em um mundo político onde a comunicação é calibrada a cada milímetro.

Mas Barack Obama sabe que, entrando na fase final de sua presidência, a equação não é a mesma. O Congresso, cujas duas câmaras são firmemente controladas pelos republicanos, não dará qualquer colher de chá nesta reta final.

E no momento onde todos os olhos em Washington estão voltados às primárias, que começam em menos de três semanas em Iowa, ele está ciente de que muitos candidatos para a sua sucessão vão capturar a maior parte das atenções.

Seus discursos e anúncios terão menos peso, a não ser que recorra a decretos sobre questões politicamente sensíveis, tais como o fechamento da prisão de Guantánamo.

"O perigo para um presidente em seu último ano é que ninguém presta atenção em você", resumiu, forçando a linha, Kathleen Hall Jamieson, professora de comunicação da Universidade da Pensilvânia.

'Arrependimentos'

Para evitar qualquer armadilha, a Casa Branca quer, literalmente, mudar os termos do debate.

Jen Psaki dá como exemplo o recente debate televisivo sobre a posse de armas de fogo.

"Ele discutiu com muitas pessoas que discordam profundamente com ele e isso é algo que ele quer renovar", explica ela. "Ele está convencido de que, como presidente, ele pode ajudar a facilitar o diálogo (na sociedade americana)".

Renunciando ao púlpito, o presidente foi capaz de apresentar os seus argumentos mais diretamente e de forma mais persuasiva, estima Jamieson.

"Este pode ser um caminho para melhor preparar o terreno para um presidente democrata e um Congresso democrata", ressalta.

Apesar da questão explosiva nos Estados Unidos, o debate sobre as armas organizado na George Mason University (Virginia, leste) marcou os espíritos com um tom respeitoso, até mesmo construtivo.

Para o poder executivo americano, essa estratégia ajuda a marcar o contraste com a campanha barulhenta e provocativa do bilionário Donald Trump, que está liderando a corrida do lado republicano.

É também uma forma de abordar, uma última vez, uma antiga promessa de campanha que permaneceu por cumprir: apaziguar os confrontos partidários que caracterizam o debate político americano.

"Um dos poucos arrependimentos da minha presidência", disse Obama no Capitólio aos políticos reunidos, "é que o rancor e a desconfiança entre as partes se acentuou em vez de diminuir".

"Estou convencido de que um presidente com o talento de Lincoln ou Roosevelt teria sido melhor para reduzir essas divisões".

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