Jornal Estado de Minas

Militares prestes a reconhecer derrota ante Suu Kyi em Mianmar

Os herdeiros da junta militar ainda no poder em Mianmar parecem prestes a admitir sua derrota frente ao partido da opositora Aung San Suu Kyi.

A apuração dos votos, que avança a conta-gotas, confirmava na manhã desta terça-feira a grande vitória da formação liderada por Suu Kyi.

As cifras ainda são insuficientes par ter uma imagem clara do resultado em nível nacional. No entanto, indagado pela AFP, um alto dirigente do partido no poder admitiu a derrota.

"Nosso partido fracassou por completo. É o destino de nosso país. Aung San Suu Kyi deve assumir o comando logo", declarou Kyi Win, um ex-coronel.

Os resultados definitivos, no entanto, serão publicados dentro de vários dias.

Na Câmara Baixa do Parlamento, os primeiros resultados, referentes a 54 das 323 cadeiras em disputa, indicam que a Liga Nacional para a Democracia (LND) conquistou 49 e o partido no poder, o USPD, apenas três.

A Comissão Eleitoral coordena o lento processo de apuração.

O partido da opositora e vencedora do Nobel da Paz Aung San Suu Kyi reivindicou na segunda-feira uma grande vitória nas legislativas de domingo, que abrem o caminho para uma mudança histórica no país.

Após décadas de dissidência, incluindo mais de 15 anos em prisão domiciliar, a "Dama", de 70 anos, demonstra prudência e pede paciência aos simpatizantes.

As primeiras circunscrições com votos apurados estão nas regiões de Yangun e Mandalay, a segunda maior cidade do país, tradicionalmente favoráveis à LND. Mas resultados divulgados nesta terça-feira mostram que a LND também domina em regiões como o delta de Irrawaddy.

O USDP mantém sua influência em regiões como os estados de Kayah e Shan, áreas de conflitos armados étnicos, apesar de uma intensa campanha da "Dama de Yangun".

A LND afirma que a nível nacional conquistou mais de 70% das cadeiras no Parlamento, um dado impossível de confirmar com uma fonte independente.

Este resultado permitiria ao partido de Aung San Suu Kyi contar com maioria absoluta, apesar da presença obrigatória no Parlamento de 25% de deputados militares, não favoráveis à LND.

Uma vez eleito o partido, o Parlamento terá que escolher no início de 2016 o próximo presidente.

Suu Kyi sabe que não poderá ser chefe de Estado porque a Constituição birmanesa proíbe o acesso ao cargo às pessoas que têm filhos de nacionalidade estrangeira, como é o seu caso.

Mas, na semana passada, ela advertiu que estaria "acima do presidente" em caso de vitória da LND.

Aos 70 anos, Aung San Suu Kyi, filha do general Aung San, um dos heróis da independência birmanesa, passou 15 anos sob prisão domiciliar e encarna há 30 anos a vontade democrática de seu povo.

As últimas eleições legislativas livres no país haviam acontecido em 1990, com uma grande vitória da LND. Suu Kyi não participou daquela campanha porque estava em prisão domiciliar e a junta militar não reconheceu o resultado.

Depois de décadas de governo de uma junta militar, seguidas por alguns anos de administração liderada pelos herdeiros dos generais, após as reformas democráticas iniciadas em 2011, isto representaria uma revolução completa e inédita no panorama político birmanês.

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