Os Estados Unidos, assim como Teerã, não querem se "precipitar" quanto a um acordo sobre o programa nuclear iraniano, e as negociações internacionais devem continuar, apesar de o secretário de Estado americano, John Kerry, afirmar que não permanecerá indefinidamente na mesa de negociações.
"Visto que os trabalhos são altamente técnicos, e as questões muito, muito elevadas, não vamos nos precipitar para um acordo", declarou Kerry à imprensa internacional reunida em frente ao palácio Coburg, em Viena, onde ocorrem as negociações.
Quase simultaneamente, seu colega iraniano, Mohammad Javad Zarif, escreveu em seu Twitter que "nós trabalhamos duro, mas sem precipitação. Não podemos trocar de cavalo no meio do páreo".
Quando questionado sobre a duração de sua estada, o ministro iraniano das Relações Exteriores afirmou que permanecerá em Viena "o tempo necessário" para concluir as negociações nucleares com as grandes potências.
Mas, nesse pingue-pongue verbal cuidadosamente orquestrado, Kerry insistiu em que os Estados Unidos não permanecerão "na mesa de negociação para sempre".
"Se as decisões difíceis não forem tomadas, estamos totalmente preparados para pôr um ponto final a este processo", afirmou, acrescentando que as conversas não são indefinidas.
Nesta quinta-feira à noite, um alto funcionário iraniano acusou as potências ocidentais de mudar de posição durante as negociações.
"Constatamos algumas mudanças de posição com relação a um grande número de questões, infelizmente", declarou a fonte, considerando que "isso torna as coisas ainda mais difíceis".
Um acordo ao alcance da mão
"Cada país tem suas próprias linhas vermelhas (...) Uma linha vermelha para os Estados Unidos, outra para a Grã-Bretanha, outra para a França e a Alemanha", acrescentou.
"Teríamos preferido não superar a data-limite, mas nosso objetivo prioritário é obter um bom acordo", destacou, acrescentando que as negociações continuam "abertas" e que tudo depende de "opções políticas", em função das quais "um acordo está ao alcance da mão".
Mais cedo, o ministro francês das Relações Exteriores, Laurent Fabius, anunciou que as discussões continuariam durante a noite.
"Há problemas que ainda são difíceis de resolver", declarou Fabius, acrescentando que "as coisas estão no bom caminho".
"Trabalharemos durante esta noite", acrescentou o ministro francês.
Se um acordo for alcançado nas próximas horas, isso pode permitir uma análise acelerada do texto por parte do Congresso americano.
Se o Congresso não receber o texto antes da manhã desta sexta-feira em Viena (meia-noite em Washington), o processo se prolongará, e não se descarta que sua aprovação seja complicada.
Além disso, expira nesta sexta à meia-noite o marco jurídico das negociações, estabelecido pelo acordo-quadro concluído em novembro de 2013 entre as grandes potências e o Irã.
As medidas previstas no acordo-quadro, que estabelece um congelamento de algumas atividades nucleares iranianas em troca de uma suspensão parcial das sanções, já foram estendidas por uma semana e, em seguida, por mais três dias desde o início das negociações em Viena, em 27 de junho.
No entanto, "não temos de nos levantar e sair só porque o relógio soou meia-noite", destacou Kerry, insinuando que as negociações não estão sujeitas a qualquer prazo específico.
Treze dias após a retomada formal das negociações, ainda não há um acordo final, apesar dos progressos realizados.
A comunidade internacional deseja colocar o programa nuclear iraniano sob estreita supervisão, para garantir sua natureza unicamente pacífica, em troca da contenção das sanções impostas há uma década.
Os negociadores têm um texto sobre a mesa, compreendendo uma centena de páginas, incluindo cinco anexos técnicos.
'Não há problemas insuperáveis'
Não estão presentes em Viena o chanceler russo, Sergei Lavrov, e o chinês, Wang Yi, ambos presentes em Ufa, na Rússia, para a cúpula dos BRICS.
Em Ufa, Lavrov disse que não há "problemas insuperáveis" e que pode viajar a Viena "a qualquer momento".
Também participa da reunião dos BRICS o presidente iraniano, Hassan Rohani, que, durante uma coletiva de imprensa com Vladimir Putin agradeceu a Moscou "por seus esforços para fazer as negociações avançarem".
Segundo fontes americanas, Kerry e Zarif se reuniram durante 40 minutos, seu primeiro encontro desde a terça-feira.
Moscou tem apoiado as exigências iranianas, principalmente a retirada, "o mais rapidamente possível", do embargo à venda de armas ao Irã, um dos pontos de tensão das negociações.
Teerã pede o levantamento das restrições sobre as armas e seu programa de mísseis balísticos. Trata-se de uma das medidas de uma série de sanções adotadas desde 2006 pelo Conselho de Segurança da ONU, mas o Irã alega que o embargo não tem nada a ver com a questão nuclear.
Embora concordem que cada país tem o direito de ter um programa militar convencional, os ocidentais consideram que a suspensão do embargo de armas não pode ocorrer neste momento, em razão do contexto regional conflituoso.