O sol se põe sobre a favela de Paraisópolis, no coração de São Paulo, emitindo uma luz alaranjada sobre o salão onde um grupo de jovens participa de um curso para modelos.
"Postura, atitude! Anda reto, para. Outra vez, anda": as instruções se sucedem à medida que os jovens desfilam por uma passarela improvisada. As meninas usam saltos altíssimos.
Estão longe dos flashes, do brilho e do glamour da Semana de Moda de São Paulo (SPFW), a maior da América Latina, que acontece esta semana.
Fazem parte de um novo projeto que desde o nome assume a distância e a diferença: "Periferia Inventando Moda", criado por um jovem de Paraisópolis que se inspirou em um programa da SPFW para difundir eventos de moda nos subúrbios da cidade em paralelo com a edição oficial.
São cerca de 15 jovens com mais de 13 anos de idade, mulheres em sua maioria, mas também algumas crianças, e são todos desta comunidade, uma das maiores de São Paulo, com cerca de 100.000 habitantes.
"Há um ano fui a um desfile do estilista João Pimenta para a SPFW em uma comunidade da periferia. E tive uma revelação", diz com bom humor Alex Santos, de 24 anos, um estudante de moda que está a ponto de se formar e é autor do projeto.
"Nesse momento pensei porque nós mesmos não criamos este eventos, não inventamos. É muito bom que a SPFW venha para cá e nos mostre desfiles, mas nós também podemos fazê-los", disse em entrevista à AFP, paralelamente à oficina deste fim de semana.
Assim nasceu "Periferia Inventando Moda", que acontece no centro municipal de educação de Paraisópolis, onde ele mesmo mora. Desde então organiza desfiles, encontros e os cursos de modelagem, que também incluem lições sobre autoestima.
Alex também conseguiu que João Pimenta, o estilista que o inspirou e que vai apresentar sua coleção na SPFW nesta semana, fosse padrinho do programa.
"A moda no Brasil será mais forte quando todos estiverem incluídos", disse Pimenta à AFP. "A moda pode chegar a qualquer lugar, sem distinguir classes ou a cor da pele. E a inspiração também pode estar em lugares muito inusitados", acrescentou.
Eu tenho um sonho
"Desde criança sempre quis ser modelo. E agora, com esse curso, levo a sério", disse à AFP Gabriela Freitas, de 16 anos, uma jovem muito alta e magra.
Tem olhos grandes e cabelo até a cintura. "Aprendi a melhorar a postura do corpo, a saber como caminhar em uma passarela. Eu pensava que nunca poderia fazer algo assim na minha vida, mas agora vejo que sim, que é possível", diz, com uma determinação firme como os passos de suas longas pernas.
Para outros é apenas um passatempo divertido ou uma oportunidade de conseguir ferramentas para sua própria vida.
"Sou negra, sou da periferia. Vivo em Paraisópolis com minha mãe e minha avó e sei que para mim tudo será mais difícil. Meus avanços são a partir dessa situação e este curso me ajuda a me desenvolver melhor", diz sem parecer se lamentar Denisse Sena, de 19 anos, que estuda administração.
Os irmãos Ebson e Anderson Conceição da Costa, de 18 e 16 anos, também participam do curso, convidados quando acompanhavam sua irmã. Foi assim que trabalharam em uma campanha de João Pimenta, que só faz roupas masculina.
"Podemos aprender e ver coisas diferentes. Se alguém nasce em um lugar como Paraisópolis provavelmente nunca terá essa oportunidade", diz Ebson.
Esta comunidade, onde também há violência como em outras comunidades pobres brasileiras, mostra os contrastes do país, no meio da rica região do Morumbi, zona de edifícios altos e centros comerciais brilhantes.
A SPFW impulsiona há alguns anos o projeto 'Moda no Céu', em referência ao Centro Educativo Unificado, projeto do município.
De segunda 13 a sexta-feira 17 de abril, quando acontece a nova edição da SPFW, acontecerão desfiles, conferências e cursos em outros lugares mais distantes da grande São Paulo. E, quem sabe, traga novos sonhos.
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